Uma nova ordem energética mundial e o cartel do petróleo

Opep perdeu poder de negociar, de controlar a demanda e enfrenta novos concorrentes

JOE, NOCERA, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2014 | 02h04

Este mês se completaram 41 anos do início do embargo do petróleo árabe. Os países que dele participaram pertenciam, é claro, à Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep) que se formara 13 anos antes para fortalecer sua capacidade de negociar com as companhias internacionais de petróleo. O embargo causou uma escassez generalizada nos Estados Unidos, preços mais altos nas bombas de combustível e longas filas nos postos de gasolina. Quando terminou, o preço do petróleo havia saltado de US$ 3 para US$ 12 o barril.

Mais importante, talvez, do que os aumentos de preços foi a nova ordem mundial que o embargo desenhou. Ele "pôs em movimento circunstâncias geopolíticas que acabaram permitindo que (a Opep) arrancasse o controle sobre a produção e a precificação do petróleo global das gigantescas companhias petrolíferas internacionais - inaugurando uma era de preços de petróleo significativamente mais altos", como observaram Myers Jaffe e Ed Morse em um artigo na revista Foreign Policy publicado no ano passado, em razão do 40.º aniversário do embargo.

Duas vezes por ano, ministros do petróleo dos países da Opep se reuniam em Viena para estabelecer a política do petróleo - decidindo se aumentariam ou diminuiriam sua produção. Sempre houve tramoias entre os membros, mas houve em geral disciplina suficiente nas fileiras para manter os preços mais ou menos onde a Opep os queria.

Curiosamente, o título daquele artigo na Foreign Policy era "O Fim da Opep". Jaffe e Morse são ambos especialistas em energia global - ela é diretora executiva de Energia e Sustentabilidade na Universidade da Califórnia, em Davis, e ele é o diretor global de pesquisas sobre commodities do Citigroup - e acreditam que se os EUA jogarem bem suas cartas, o domínio da Opep no mercado de petróleo pode acabar. Eu penso que esse dia pode ter chegado.

"A Opep não vai sobreviver por outros 50 anos", disse-me Morse. "Ela provavelmente nem mesmo sobreviverá a outros 10. Fechar um acordo ficou extremamente difícil para eles."

Oscilação. Quando Morse e Jaffe escreveram seu artigo, no ano passado, o preço do petróleo estava em mais de US$ 100 o barril. Hoje, o preço do barril oscila entre US$ 80 e US$ 85, Ele caiu mais de 25% desde junho. Houve um tempo em que US$ 80 por barril seria mais do que satisfatório para membros da Opep, mas esses dias acabaram.

As necessidades orçamentárias da Venezuela requerem que ela venda seu petróleo bem acima de US$ 100 o barril. A Primavera Árabe levou alguns membros importantes da Opep - entre eles Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (EAU) - a aumentarem gastos orçamentários para manter suas próprias populações apaziguadas.

Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), os EAU precisam de um preço acima de US$ 80 para cumprir obrigações fiscais. O preço do barril era menos de US$ 25 em 2008.

Não faz muito tempo, a Venezuela pediu uma reunião de emergência da Opep para discutir uma redução da produção. O Irã considerou a reunião desnecessária. Enquanto isso, a Arábia Saudita deixava claro que sua maior preocupação era não perder participação de mercado, por isso continuaria bombeando petróleo a despeito das necessidades de outros membros da Opep. Este não é exatamente o comportamento de um cartel.

A próxima reunião da Opep está programada para o fim de novembro, mas é pouco provável que se chegue a um acordo. E por que a Opep se encontra de repente tão debilitada? Em poucas palavras, a oferta de petróleo é maior que a demanda e a Opep perdeu sua capacidade de controlar essa oferta. Parte da razão disso é uma desaceleração da demanda global. A economia chinesa desacelerou e o mesmo ocorreu com seu apetite voraz por petróleo. O Japão, por sua vez, está se voltando cada vez mais para energia nuclear e gás natural.

Mas uma parte ainda maior da razão é que a revolução do xisto na América do Norte está mudando por completo a dinâmica oferta e demanda. Desde 2008, diz Bernard Weinstein, um especialista em energia na Southern Methodist University, a produção de petróleo nos EUA cresceu 60%. Isso representa mais 3 milhões de barris por dia. Dentro de alguns anos, prevê o especialista, os EUA superarão a Rússia e a Arábia Saudita e se tornarão os maiores produtores mundiais de petróleo.

Além disso, segundo outro artigo que Morse escreveu, este para a revista Foreign Affairs, "os custos de encontrar e produzir petróleo e gás de xisto em formações rochosas rígidas estão caindo acentuadamente e vão cair ainda mais nos próximos anos". Em outras palavras, o setor energético americano poderá perfeitamente suportar melhor as novas quedas de preços do que os membros da Opep.

Quando consegui falar com Jaffe por telefone, perguntei-lhe se ela achava que a Opep era carta fora do baralho. "Nunca se deve dizer nunca", ela respondeu e, em seguida, expôs alguns cenários tétricos - a maioria girando em torno de campos de petróleo sendo atacados ou bombardeados - que poderiam provocar uma nova escassez de oferta.

Excetuando isso, porém, este é um momento que vínhamos há muito esperando. Graças à revolução do xisto, a Opep se tornou um tigre de papel. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É EDITOR DE POLÍTICA E ASSUNTOS

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