Alex Edelman/AFP
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Uma nova pergunta para o serviço secreto: Quem os irá proteger de Trump?

O fundamental do trabalho é a disposição para dizer sim ao presidente, não importa o que ele pergunte. Agora, isso significa submeter a saúde dos agentes aos caprichos de um 'presidente contagioso'

Zolan Kanno-Youngs e Michael S. Schmidt, The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2020 | 13h56

WASHINGTON - Por mais de um século, agentes do serviço secreto viveram por uma ética direta: levar o presidente aonde ele queira ir, mesmo que isso signifique colocar seus corpos na frente de uma bala.

Mas esse princípio condutor foi testado nos últimos dias pelo desejo do presidente Donald Trump de voltar ao trabalho, jogar ou fazer campanha, apesar da infecção pelo novo coronavírus que poderia representar uma séria ameaça para aqueles ao seu redor.

O problema entrou em foco no domingo, quando Trump, com máscara, subiu em um carro blindado e hermeticamente fechado com pelo menos dois agentes do serviço secreto - cobertos da cabeça aos pés com o mesmo equipamento de proteção pessoal usado pelos médicos - para que o presidente pudesse acenar a um grupo de apoiadores do lado de fora do Centro Médico Militar Nacional Walter Reed em Bethesda, Maryland. 

Especialistas da área de saúde disseram que a ação colocou os agentes em risco de forma imprudente. A equipe do serviço secreto questionou em particular se precauções adicionais serão tomadas para proteger esse aspecto do homem que eles se comprometeram a proteger. 

"Está na mente de todos", disse W. Ralph Basham, ex-diretor do serviço secreto e comissário de alfândega e proteção de fronteiras dos Estados Unidos no governo George W. Bush. "Os que já não estão lá estão felizes por não estarem lá. Essas são decisões difíceis de tomar."

Na noite de segunda-feira, 5, Trump novamente colocou os agentes em risco quando ele viajou de helicóptero para retornar à Casa Branca após receber alta do hospital.

O ponto central do trabalho dos agentes do serviço secreto é a disposição de dizer sim ao presidente, não importa o que ele pergunte. Agora, isso significa submeter a saúde de um agente aos caprichos de Trump.

Críticos dizem que o presidente não está retribuindo a dedicação de seus protetores com qualquer cuidado ou consideração. Embora os agentes tenham se oferecido para se sacrificar por aqueles que protegem, eles o fazem sabendo que há pouca chance de que eles precisem se colocar entre um atirador e o presidente.

"Se eles estão no destacamento de proteção, eles vão levar um tiro por seu protegido", diz Janet Napolitano, a primeira secretária de segurança interna do presidente Barack Obama. "Há uma diferença entre isso e estar desnecessariamente exposto a riscos", acrescenta ela, algo que se estende as suas famílias.

A visita de carro aos apoiadores de Trump mostrou esse ponto, diz Napolitano. "Não havia nada sobre sua pequena carreata ontem que fosse exigido, sábio ou necessário", disse ela. "Foi um ato supérfluo."

Os agentes do serviço secreto sempre precisaram fazer ajustes de última hora com base nos caprichos políticos dos presidentes, disse Michael Beschloss, historiador presidencial. E a relação entre os presidentes e seus detalhes de proteção geralmente gerou pouco debate. Mas, no final das contas, os presidentes têm apetite para fazer aparições públicas diante de seus apoiadores, aliados e, em alguns casos, adversários. E o presidente quem tem a palavra final.

"Essas são pessoas que se ofereceram para dar suas vidas por eles, e quase todos os presidentes de que me lembro usam esse privilégio com cuidado e com grande respeito", afirma Beschloss.

Trump respondeu às críticas na segunda culpando a imprensa. "Entrei em um veículo seguro para agradecer aos muitos fãs e apoiadores que ficaram do lado de fora do hospital por muitas horas, e até dias, em homenagem ao seu presidente", postou ele no Twitter. "Se eu não fizesse isso, a mídia diria 'RUDE'!!!"

Rand Beers, um ex-secretário interino do Departamento de Segurança Interna, reconheceu que os presidentes eram obrigados a transmitir "à nação que as coisas estão no caminho certo". "Mas", ele acrescenta, "você ainda está colocando os agentes em risco se não estiver tomando precauções".

No dia seguinte à viagem de Trump, o parlamentar democrata do Mississippi e presidente do Comitê de Segurança Interna da Câmara, Bennie Thompson, exigiu uma instrução do Departamento de Segurança Interna para saber mais sobre as salvaguardas em vigor para os funcionários da agência e, especificamente, os detalhes de proteção.

"O cúmulo do imprudente desrespeito pelos outros foi a alegria do presidente ontem, onde agentes do Serviço Secreto foram obrigados a conduzi-lo em um veículo hermeticamente fechado", disse Thompson. "Expor o pessoal do Serviço Secreto ao vírus não apenas os coloca em risco, mas também coloca em risco suas famílias e o público."

Como outras forças de segurança, o serviço secreto também foi forçado a superar uma série de obstáculos assustadores criados pela pandemia. Trump e seu oponente democrata na eleição, o ex-vice-presidente Joe Biden, continuaram a viajar, e as medidas de proteção ao vírus não permitem o distanciamento social.

Antes de Trump realizar um comício em Tulsa, Oklahoma, em junho, pelo menos dois membros do Serviço Secreto que estavam se preparando para o evento testaram positivo para o novo coronavírus. Uma viagem planejada pelo vice-presidente Mike Pence ao Arizona, em julho, foi cancelada depois que vários membros de sua equipe de segurança contraíram o vírus.

O jornal The New York Times noticiou na sexta-feira, 2, que a agência sofreu um surto em seu centro de treinamento na zona rural de Maryland, em agosto, depois que os trainees realizaram um jantar de formatura no interior sem distanciamento social. Esse surto, no qual pelo menos 11 pessoas tiveram resultado positivo, ocorreu apesar da decisão da agência de fechar as instalações para estabelecer procedimentos para prevenir as transmissões.

Questionada sobre a viagem de Trump no domingo, Justine Whelan, porta-voz do serviço secreto, disse em um comunicado que a agência "não discute nossos protegidos ou os meios e métodos específicos relacionados à nossa missão de proteção". A agência ainda não soltou o número total de casos confirmados de coronavírus em sua equipe de trabalho.

"Estamos meio que em águas desconhecidas aqui", disse Basham. E completou: "No final do dia, o trabalho é o que é. Você não pode fazer isso em uma chamada de Zoom ou algo remoto. Esses agentes e oficiais têm que estar lá com ele, e não há substituto para isso."

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