Uma nova tática anti-Putin

Para isolar mesmo a Rússia, é preciso mais agressividade comercial, política e militar

John Mccain, John Barrasso, John Hoeven e Ron Johnson, The Washington Post/O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2014 | 02h05

Visitamos recentemente Noruega, Estônia, Letônia, Lituânia e Moldávia. Em cada um desses países, os aliados dos EUA afirmaram que aguardam uma resposta imediata mais vigorosa à anexação da Crimeia pela Rússia e a subversão registrada na Ucrânia. Como nós, eles também acham que os recentes atos de agressão do presidente da Rússia exigem uma resposta estratégica firme da parte de EUA, Europa e Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Deve estar óbvio para todos que a Rússia de Putin tomou um rumo sombrio. Impossível reatar as relações. Não podemos voltar à normalidade.

Os países ocidentais colocavam grandes esperanças nas relações dos EUA com a Rússia após a Guerra Fria e agiram nesse sentido. Washington forneceu bilhões de dólares para ajudar a transição da Rússia do comunismo para o capitalismo. Foram criados novos mecanismos de consulta e o intercâmbio comercial foi expandido. A Otan comprometeu-se a não instalar bases e mobilizar recursos militares em território dos novos membros da aliança, mesmo se expandindo. Em resumo, o Ocidente pretendia inserir a Rússia no âmbito de uma Europa plena, livre e em paz - um sonho no qual ainda acreditamos.

Infelizmente, a esperança de um relacionamento construtivo com a Rússia sob o governo de Putin se esvaneceu. Um rival amigo tornou-se, no melhor dos casos, um adversário arisco. Putin não desistirá da sua empreitada para dominar os vizinhos da Rússia (uma das principais razões é conquistar apoio, em seu país, para seu governo autocrático e corrupto). Ele pode cooperar com diplomatas ocidentais ansiosos para evitar um conflito, como ocorreu recentemente em Genebra, mas trata-se apenas de uma maneira de consolidar seus ganhos, dividir os EUA e a Europa, ganhar tempo e preparar-se para continuar sua ofensiva. A fraqueza ocidental encoraja Putin. A única coisa que ele respeita e pode mudar seu raciocínio é uma força ainda maior.

Diante disso, precisamos adotar medidas de natureza política. No curto prazo, os EUA devem ampliar as sanções para incluir grandes bancos russos, empresas energéticas e outros setores da economia russa - como o de armamentos, que servem como instrumentos da política externa de Putin. Devem também expor a clamorosa corrupção das autoridades russas e afastar essas pessoas, seus parceiros comerciais e parentes de contatos comerciais e viagens ao Ocidente. Alguns dos aliados europeus dos EUA desejariam evitar sanções muito duras, mas medidas débeis não irão deter Putin. Basicamente, as ações de Putin na Ucrânia exigem uma resposta estratégica. Isso não significa uma nova Guerra Fria. Mas é preciso reconhecer o desafio geopolítico que Putin representa para o mundo após a Guerra Fria na Europa e estabelecer uma relação mais competitiva com a Rússia.

A Otan precisa se encarregar de novo de suas missões consideradas essenciais, de dissuasão e defesa coletiva. O que vai exigir um reequilíbrio da posição de força e presença da aliança. A capacidade militar da Otan deve ser aumentada e distribuída de modo mais uniforme por toda a área de atuação da aliança atlântica, incluindo uma presença mais persistente e robusta na Europa Central e nos países do Báltico. Para a Otan atuar mais em favor dos seus membros, esses têm de trabalhar mais por si mesmos e pela da aliança. Os EUA devem revogar os cortes prejudiciais do seu orçamento da defesa. E os aliados da Otan precisam cumprir a promessa de despender pelo menos 2% do seu PIB na área da defesa o mais breve possível.

É necessária também uma estratégia transatlântica na área energética. A Europa depende do gás e do petróleo russos, enquanto as provisões dos EUA aumentam mais rapidamente do que a sua capacidade de comercializá-las (na verdade um volume de gás equivalente a US$ 1,5 milhão precisa ser queimado diariamente porque os EUA não têm os recursos necessários para transportá-lo ou refiná-lo).

Levará anos para equilibrar a demanda europeia com a oferta americana, mas é preciso começar agora. Os países europeus precisam investir em infraestrutura para receber gás natural liquefeito dos EUA, como tem feito a Lituânia, e repassá-lo pela Europa. O governo Obama precisa suspender as restrições aos pedidos de abertura de terminais de gás natural liquefeito e adotar medidas para o seu processamento mais acelerado, para que o setor privado possa ter mais capacidade de transporte e armazenamento. Tais medidas enfraquecerão Putin.

Outra questão várias vezes levantada durante nossa viagem é que Putin está vencendo a guerra de ideias entre as populações de língua russa na ex-União Soviética. A propaganda de Putin tem base em mentiras, mas é eficaz e difícil de ser refutada. O Ocidente, está expondo a verdade, em russo, para as populações de língua russa da Europa. Isso precisa mudar e a velha diplomacia pública não é necessariamente a resposta. O setor privado pode assumir um papel importante nesse caso.

Enfim, o Ocidente deve fornecer apoio diplomático, econômico e militar para Ucrânia, Moldávia, Geórgia e outros países europeus que aspiram fazer parte da comunidade transatlântica. É preciso mostrar a todos esses países que, desde que atendam exatamente aos critérios necessários para a adesão, as portas da Otan e da União Europeia estão abertas e as decisões fundamentais sobre sua política externa cabem a eles e mais ninguém. Os EUA e a Europa não procuraram, nem mereceram, esse desafio da Rússia de Putin. Mas precisam responder à altura.

*Os republicanos John Mccain, John Barrasso, John Hoeven e Ron Johnson representam os estados do Arizona, Wyoming, Dakota do Norte e Wisconsin, respectivamente, no Senado.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.