Uma oportunidade de reconciliação

Há sinais de que é hora de Síria e Israel tentarem obter um acordo de paz, que poderia pôr fim a um conflito maior

Nick Bunzl, Los Angeles Times, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

No Oriente Médio, rumores de guerra e boatos de paz costumam caminhar juntos. Infelizmente, nos últimos meses, o primeiro tipo foi mais ouvido na frente síria-israelense. Relatos de um sistema avançado de radar entregue pelo Irã à Síria, a transferência de mísseis Scud sírios ao Hezbollah, e a reunião de cúpula tripartite realizada em fevereiro entre o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, o presidente sírio, Bashar Assad, e o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, são indício de uma parceria militar revigorada. Mas, nos últimos tempos, Assad enviou também sutis sinais de que estaria preparado para conversar com Israel.

Trata-se de uma oportunidade que Israel e Estados Unidos não podem se dar ao luxo de desperdiçar.

Desde o incidente com o comboio humanitário que seguia para a Faixa de Gaza, em maio, Assad transmitiu mensagens pragmáticas apoiando uma renovação no diálogo. Em reunião com o primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, Assad lamentou a recente cisão entre Israel e Turquia e o seu significado para o papel de mediação entre Israel e Síria desempenhado pelos turcos. A mediação turca "decorre do relacionamento da Turquia com Israel e do relacionamento da Turquia com a Síria. Um mediador precisa manter boas relações com ambos os lados envolvidos", disse ele.

Em dezembro de 2008, os esforços de mediação da Turquia pareciam estar avançando até que Israel lançou na Faixa de Gaza a Operação Chumbo Fundido. O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, sentiu-se traído ao ver seus esforços ruírem diante da ofensiva israelense. Os laços entre Turquia e Israel deterioram-se desde então, atingindo seu ponto mais baixo quando comandos israelenses assassinaram nove cidadãos turcos num navio que fazia parte do comboio que ia para Gaza.

O governo Barack Obama fez esforços no sentido de se aproximar da Síria, enviando uma delegação de executivos do setor de tecnologia e funcionários do Departamento de Estado, e nomeando um embaixador (que aguarda a confirmação do Senado). Mas, ao mesmo tempo, a Casa Branca renovou as sanções contra o país. Até o momento, os EUA dedicaram seus esforços de conciliação principalmente ao conflito entre israelenses e palestinos.

Avanço. Relatos recentes de que o senador democrata Arlen Specter, da Pensilvânia, teria sido procurado por Assad para ajudar na retomada das negociações com os israelenses sugerem que agora seria um bom momento para ver se o envolvimento da Casa Branca com a Síria pode ser direcionado para um avanço no acordo entre Síria e Israel.

Nas estruturas israelenses de defesa e espionagem, é grande o número de vozes que defendem o avanço das negociações, entre elas a do ministro da Defesa, Ehud Barak. E como destacou Aluf Benn no jornal israelense Haaretz, Assad foi capaz de manter a "estabilidade interna" e, quando Israel bombardeou um suposto reator nuclear na Síria em 2007, ele mostrou ser "um líder racional e contido". É claro que, para o estabelecimento de um diálogo significativo entre Israel e Síria, a mesa de negociações deve trazer a maior de todas as recompensas: as Colinas do Golan. Se as negociações fracassarem e a Síria insistir em promover um comportamento contraproducente na região, devemos considerar a possibilidade de recorrer aos porretes.

Para Obama, as negociações entre Israel e Síria são uma forma indireta de promover o processo de paz entre israelenses e palestinos, e apresentam grandes méritos próprios. Um avanço entre Síria e Israel pode ser capaz de cumprir um objetivo americano tangível, afastar o clima sombrio que envolve a região e fortalecer a liderança americana.

E, por meio de um esforço chefiado pelos EUA para selar um acordo entre Síria e Israel, os sírios podem ser encorajados a desempenhar um papel construtivo no Iraque enquanto a presença americana no país torna-se cada vez menor.

Para Israel, um acordo com a Síria contendo as garantias necessárias representaria um grande fortalecimento da segurança em sua fronteira norte, diluiria substancialmente o apoio sírio ao Hamas e ao Hezbollah e mostraria uma nova disposição israelense para a normalização das relações com seus vizinhos por meio da troca de território por paz.

Para a Síria, um acordo poderia levar o país a recuperar as Colinas do Golan e a uma reconciliação com os EUA.

Além disso, um acordo entre Israel e Síria proporcionaria um útil contexto estratégico dentro do qual as iniciativas de paz com o mundo árabe poderiam ser retomadas como um amplo paradigma capaz de pôr fim ao conflito maior entre árabes e israelenses.

Em todo cenário em que encontramos vencedores, há também perdedores.

Neste caso, os principais derrotados seriam o Irã e sua cria libanesa, o Hezbollah. O Hamas, com sua base de apoio em Damasco, se veria submetido a novas pressões.

Ainda assim, os EUA devem avançar no sentido de uma reconciliação entre Síria e Israel. Os ganhos potenciais superam em muito os possíveis riscos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É DIRETOR EXECUTIVO DO FÓRUM DE POLÍTICAS PARA ISRAEL

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