Uma oportunidade para Netanyahu

Será que o premiê de Israel aproveitará a parceria com o Kadima para retomar o diálogo com os palestinos e fazer as necessárias reformas no país ou continuará centrado no Irã?

, , É PROFESSOR DE FILOSOFIA POLÍTICA, JURÍDICA NA UNIVERSIDADE SUFFOLK , NIR, EISIKOVITS, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR , , , É PROFESSOR DE FILOSOFIA POLÍTICA, JURÍDICA NA UNIVERSIDADE SUFFOLK , NIR, EISIKOVITS, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR , O Estado de S.Paulo

12 Maio 2012 | 03h04

Quer se ame ou se odeie o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, o fato é que ele é um visionário, um pensador estratégico. Filho de Benzion Netanyahu, que foi um dos mais destacados historiadores do Estado, Netanyahu parece focado em nada menos que a capacidade dos judeus de sobreviverem como um povo e no papel de Israel na sua sobrevivência. Sua insistência em exibir documentos relacionados ao Holocausto em seus discursos não é exclusivamente o resultado de mau gosto ou alarmismo barato.

´gggO ponto crucial da visão estratégica de Netanyahu parece ser o imperativo de impedir um segundo Holocausto.

É por isso que ele parece especialmente orgulhoso de ter recentemente mudado as conversações internacionais sobre o Oriente Médio. Foi em grande parte por suas insistências, posições e ameaças que as atenções mundiais se concentraram na ameaça representada pelo comentado programa de armas nucleares do Irã. No que diz respeito a Netanyahu, isso marca uma virada do aborrecimento tático que é o conflito israelense-palestino - incômodo, mas perfeitamente manejável - para uma questão fundamental que ameaça a existência do Estado judeu.

Infelizmente, o senso de estratégia de Netanyahu foi perigosamente limitado enquanto ele permaneceu hipnotizado pelo Irã sem fazer um esforço ou apelo público igual à muitas outras questões que ameaçam a estabilidade de Israel e do Oriente Médio. Resta ver se a dramática reforma em sua coalizão nesta semana fará a diferença. Mas a nova parceria com o partido centrista Kadima poderá proporcionar a Netanyahu o respaldo político necessário para enfrentar um leque mais amplo de questões.

A ameaça iraniana é apenas parte de um complicado quebra-cabeça regional para os israelenses. O conflito com os palestinos e a direção tomada pelos novos regimes na Líbia, Egito, Iêmen, Tunísia e, assim se espera, a Síria são outras peças. O grande desafio que os líderes israelenses enfrentam é imaginar como essas peças se ajustam.

Novos regimes.

Considere-se o seguinte: partidos políticos islâmicos devem assumir o poder na maioria dos países recém-libertados do mundo árabe. Isso é preocupante, mas a Irmandade Muçulmana - hoje um dos movimentos políticos regionais mais poderosos - é mais pragmática que seus concorrentes salafistas, Israel (como boa parte do Ocidente) tem um forte interesse em manter a Irmandade o mais moderada e pragmática possível. Como um ataque israelense ao programa nuclear iraniano afetará a orientação dos regimes árabes emergentes? Como afetará as perspectivas de manter os tratados de paz com Egito e Jordânia? Israel também tem um interesse vital em fortalecer elementos moderados nos territórios palestinos. O primeiro-ministro da Autoridade Palestina, Salam Fayyad, e seus colegas tecnocratas mantiveram a Cisjordânia relativamente calma e próspera nos últimos anos. Como um ataque às instalações nucleares iranianas influenciaria no equilíbrio de poder entre moderados e extremistas nos territórios palestinos? O que isso acarretaria à credibilidade de Fayyad e seus apoiadores? O que, quanto a isso, contribuiria para o delicado equilíbrio entre os elementos mais belicosos e mais moderados dentro do Hamas (ele próprio um rebento da Irmandade Muçulmana)? O desafio mais formidável de Israel é administrar simultaneamente a ameaça colocada por uma potencial arma nuclear iraniana e a criada por uma maré crescente de islamismo em sua vizinhança. Todas essas ameaças estão intrinsecamente ligadas.

Um ataque precipitado, prematuro, ao Irã terá um impacto dramático nos governos emergentes do mundo árabe e na política interna nos territórios palestinos. Ele daria um reforço aos representantes mais radicais do Islã político e desviaria atenção e recursos das novas instituições árabes das muito necessárias reformas domésticas. Muito provavelmente, também acarretaria a anulação de todos os tratados de paz já precários que Jordânia e Egito assinaram com Israel.

O foco aparentemente singular de Netanyahu no Irã também obscureceu e deixou de lado uma série de questões domésticas, todas fundamentais para o futuro e a integridade do Estado judeu. Os novos acordos de coalizão centrista incluem promessas de avançar em algumas dessas frentes. Considerem os seguintes exemplos.

No meio do ano passado, várias cidades de Israel conviveram com a agitação social. A classe média produtiva do país estava ficando cada vez mais insatisfeita com as rígidas políticas econômicas de livre mercado. Na última década, essas políticas resultaram em níveis crescentes de desigualdade de renda e uma falta de acesso a moradias e educação a preços acessíveis.

Além de algumas medidas paliativas e declarações pro forma, o governo Netanyahu pouco fez para enfrentar significativamente esses problemas. De mais a mais, o sistema eleitoral disfuncional do país distorce sua democracia ao conferir um poder desproporcional a pequenos partidos ultraortodoxos antidemocráticos e antissionistas.

Essas distorções cassam o direito a voto e alienam a maioria dos eleitores israelenses que é obrigada a ver seu governo subsidiar toda uma classe de jovens que se recusam a fazer o serviço militar, ou a fazer parte da economia formal.

De novo, até agora, o governo Netanyahu não fez nada para enfrentar isso. E o foco na questão iraniana proporcionou uma desculpa perfeita para tirar essas questões problemáticas e incômodas da mesa.

A nova coalizão livra Netanyahu da "gravata" dos partidos ultraortodoxos e de extrema direita. Ela lhe permite fazer mudanças dramáticas no sistema eleitoral.

Ela lhe permite aprovar reformas sociais desde há muito necessárias, que distribuiriam mais equitativamente os encargos dos serviços públicos e militares. E lhe confere o respaldo político para ressuscitar conversações com os palestinos.

A questão é se o premiê agarrará com firmeza essas oportunidades ou usará seu apoio parlamentar revigorado para garantir a legitimidade de um futuro ataque ao Irã. Se realmente for um visionário, chegou a hora de Netanyahu ver o cenário todo. Seu foco centrado no Irã não promoveu os interesses de Israel.

A nova coalizão que ele costurou com tanta habilidade cria uma rara oportunidade para reformular as instituições domésticas de Israel e fortalecer sua posição regional. Se Netanyahu vai aproveitar essa oportunidade é uma questão estratégica real que se coloca para o Estado judeu. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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