Uma Palestina criada pela ONU

A organização conseguiu fundar Israel seis décadas atrás e agora poderia fazer o mesmo, mas ação exigiria ousadia

Robert Wright, The New York Times, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2010 | 00h00

O blogueiro Andrew Sullivan chamou a política dos EUA para Israel de "suicídio assistido". Pode ser exagero, mas na sexta-feira ela se aproximou disso. Hillary Clinton anunciou que os EUA usarão a velha estratégia e conversarão com palestinos e israelenses sobre o que eles poderiam dizer se conversassem diretamente. Há uma estratégia que poderia realmente funcionar. Ela requereria ousadia da parte do presidente Barack Obama, mas poderia lhe valer um lugar na história e a gratidão perpétua da maioria dos judeus e palestinos.

Para agarrar a oportunidade seria preciso, primeiro, enxergar a falha numa premissa de nossa política atual de que os EUA e a comunidade internacional não podem impor uma solução. Sim, nós podemos.

As Nações Unidas criaram um Estado judeu há seis décadas, e pode criar um Estado palestino agora. Ela pode definir as fronteiras, estabelecer o cronograma, e formular as regras para eleições palestinas (especificando, por exemplo, que os vencedores precisam jurar obediência a uma Constituição que reconhece o direito à existência de Israel).

Estabelecer tal Estado envolveria mais questões espinhosas do que podem ser tratadas neste espaço. Mas, por mais confusa que essa solução pareça, ela parece muito boa quando se percebe como o processo atual não tem futuro.

Palestinos e israelenses alternaram-se para impedir esse processo, e ultimamente Israel está na frente. Uma batelada de incentivos americanos não conseguiu fazer o premiê Binyamin Netanyahu abandonar a construção de assentamentos israelenses. Todo dia, as construções - em especial em Jerusalém Oriental - torna mais difícil imaginar fronteiras de dois Estados que deixariam os palestinos com a dignidade mínima necessária para uma paz duradoura. As chances de um acordo naufragam, a impaciência internacional cresce. Neste mês, Brasil e Argentina reconheceram um Estado palestino com fronteiras anteriores a 1967.

Por comparação, a solução da ONU parece favorável a Israel. As fronteiras seriam traçadas para acomodar alguns dos assentamentos israelenses mais densos ao longo das linhas de 1967 (enquanto dariam terra em troca a um novo Estado palestino). A maior vantagem, porém, talvez seja a cobertura política que essa abordagem daria a Obama. Um grande número de judeus americanos (e israelenses) apoiará o plano, porque uma paz duradoura estará finalmente ao alcance. Alguns meses atrás, Amjad Atallah e Bassma Kodmani propuseram que se as negociações palestino-israelenses fracassassem, como de fato fracassaram, a ONU devia adotar uma ação diferente: "conseguir participação na ONU por Estado com uma resolução do Conselho de Segurança em que este assume a responsabilidade por finalizar os termos de um acordo com dois Estados". / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É JORNALISTA E ESCRITOR

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.