AP Photo/Andrew Harnik
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Uma polarização perigosa nos EUA

Nas últimas décadas as pessoas começaram a se definir politicamente não mais com base nas questões econômicas tradicionais, mas na identidade – gênero, raça, etnia, orientação sexual

Fareed Zakaria / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2017 | 05h00

O ataque a tiros durante um treino de beisebol de congressistas republicanos, há uma semana, foi um exemplo terrível da polarização política que vem dilacerando os EUA. Cientistas políticos têm mostrado que o Congresso está mais dividido do que nunca desde o fim da Reconstrução.

Estou surpreso não só com o fanatismo partidário nos dias de hoje, mas cada vez mais com seu caráter. As pessoas do outro lado da divisão não estão apenas erradas e devem ser contestadas; elas são consideradas imorais e têm de ser silenciadas ou punidas.

Isto não tem nada a ver com política. O fosso separando esquerda e direita durante grande parte da Guerra Fria era muito maior do que hoje em determinados assuntos. Muita gente da esquerda queria nacionalizar ou controlar setores inteiros da indústria; à direita, seus partidários defendiam abertamente a total revogação do New Deal. Comparado a isso, as divisões econômicas atuais parecem relativamente pequenas.

Hoje, o partidarismo tem mais a ver com identidade. Segundo os estudiosos Ronald Inglehart e Pippa Norris, nas últimas décadas as pessoas começaram a se definir politicamente não mais com base nas questões econômicas tradicionais, mas na identidade – gênero, raça, etnia, orientação sexual. Acrescentaria a isso uma classe social mista, algo raramente citado nos EUA, mas um determinante poderoso de como nos enxergamos. A eleição de 2016 teve muito a ver com classe social, com eleitores das zonas rurais sem nenhum curso superior reagindo contra uma elite urbana, profissional. 

O aspecto perigoso desta nova forma de política é que a identidade não se presta facilmente ao compromisso. Quando a divisão era econômica sempre era possível eliminar as diferenças. Se um indivíduo desejasse gastar US$ 100 bilhões e outro defendesse zero de gastos, chegava-se a um meio-termo. O mesmo ocorria com os cortes de impostos ou com relação à política social e previdenciária.

Mas se assuntos importantes têm a ver com identidade, cultura e religião (caso do aborto, direitos dos gays, monumentos da Confederação, imigração, línguas oficiais), então qualquer compromisso parece imoral. A política americana vem se assemelhando mais à política do Oriente Médio, onde não existe meio-termo entre sunitas e xiitas.

Reações. Tenho observado esta mudança nas reações a meus artigos, e, mais recentemente, ao meu programa na TV. Quando comecei a escrever minha coluna, há duas décadas, os desacordos eram quase sempre mordazes, mas na maior parte tinham relação com o conteúdo da matéria. Hoje, cada vez menos se discute o conteúdo e, com frequência, os ataques são pessoais, envolvendo raça, religião e etnia. 

Hoje tudo é combustível para insuflar o partidarismo. Veja o caso da agora famosa peça Julius Cesar, no Public Theater, em Central Park, em que Júlio César se assemelha a Donald Trump.

Os conservadores criticaram acerbamente a peça, despertando a indignação das pessoas que não a assistiram, afirmando que ela glorifica o assassinato e estão tentando cortar o financiamento da produção. Quando, pelo Twitter, elogiei a peça, recebi uma saraivada de ataques, muitos deles repugnantes. Em 2012, uma produção da mesma peça tinha um César parecido com Barack Obama assassinado todas as noites e ninguém reclamou. 

Na verdade, a mensagem central da peça é que o assassinato de César foi um desastre, provocou uma guerra civil, anarquia e a queda da república romana. Os assassinos foram derrotados e degradados, e, dilacerados pela culpa, tiveram morte horrível. Se não estava claro o bastante, o diretor da peça, Oskar Eutis, explicou a mensagem que queria passar: “Júlio César pode ser entendido como uma parábola de advertência para aqueles que tentam defender a democracia por meios não democráticos. 

O teatro político é tão antigo quanto a civilização. Uma peça de Shakespeare, que na verdade apresenta César (Trump) sob uma perspectiva ambivalente, de certo modo favorável – deve ser debatida, não censurada, e certamente não responsabilizada pelas ações de um atirador transtornado.

Recentemente proferi um discurso na Bucknell University em que critiquei universidades liberais dos EUA por calarem opiniões que qualificam como ofensivas, argumentando que são prejudiciais para os estudantes e o país. O mesmo vale para os conservadores que tentam fazer campanha para retirar o financiamento de arte que eles consideram ofensiva. 

Querem agora que Central Park seja o próprio espaço seguro particular? Insisto em afirmar que conservadores e liberais precisam se abrir a todas as opiniões e ideias que diferem das suas. Em vez de procurarmos silenciar, banir e punir, vamos olhar para o outro lado e procurar ouvir, entender e, se for o caso, discordar. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

É COLUNISTA

 

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