AFP PHOTO / MANDEL NGAN
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Uma prece pelo presidente

Visitas de Trump são menos uma viagem presidencial convencional e mais um seminário itinerante sobre religiões mundiais

Frank Bruni / New York Times*, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2017 | 05h00

Tendo em vista a encrenca em que se encontra e o martírio que o persegue, é natural que Donald Trump se volte para Deus. Ele deixou o país - na última hora - em sua primeira excursão ao exterior desde que assumiu a presidência. É menos uma viagem presidencial convencional e mais um seminário itinerante sobre religiões mundiais: Islã (Arábia Saudita é a primeira parada), judaísmo (Israel é a segunda) e catolicismo romano (o Vaticano é o encerramento, na quarta-feira).

Estou especialmente ansioso para saber como será seu encontro com o papa Francisco, reunião destinada a constar dos anais das duplas exóticas. Um dos dois é facilmente irritável. O outro é ascético. Um peca. O outro perdoa. Preparem, pois, as metáforas - e terço na mão. Durante a campanha de Trump, Francisco condenou a ideia do muro ao longo da fronteira com o México. Trump não voltou exatamente a outra face, como manda Cristo. “Inaceitável”, afirmou.

É espantoso ver um homem tão convictamente profano pagando tão ostentatório tributo ao sagrado. Teria Trump sido tocado pelo Espírito Santo? Estaria embevecido pelos mistérios da fé? Eu acho que ele está mais em busca de compensação espiritual. Ou talvez ande se ajoelhando demais.

Prevejo um desastre. A parte israelense, na verdade, já é um, e não apenas porque Trump acaba de ser flagrado compartilhando informações de Israel com os russos. Ele abandonou a ideia de discursar na fortaleza montanhosa de Masada depois de ter negada permissão para aterrissar de helicóptero em tão delicado sítio arqueológico. Quando os presidentes George W. Bush e Bill Clinton estiveram lá, não reclamaram de subir de teleférico. Trump frustrou os israelenses com sua insistência em limitar a 15 minutos a visita ao consagrado memorial do Holocausto de Yad Vashem. O presidente Barack Obama dedicou uma hora. Bush idem.

Trump vem exortando enfaticamente a religião desde o momento em que começou a campanha presidencial. Isso explica em grande parte por que escolheu como companheiro de chapa Mike Pence, um queridinho da direita religiosa. Também está por trás das recentes instruções ao imposto de renda para dar liberdade a grupos religiosos de fazerem lobby político.

Seu relacionamento particular com o Todo Poderoso nem sempre assume formas óbvias. Embora tenha sido criado no presbiterianismo, a igreja que frequentava em Manhattan, Marble Collegiate, é mais conhecida por seu pregador celebridade, Norman Vincent Peale, que comercializou o poder do pensamento positivo. “Atitudes são mais importantes que fatos”, ensinava Peale.

Versões. Donaldinho ouvia com atenção. Já Donaldão trata os Dez Mandamentos não como se fossem gravados em pedra, mas escritos com tinta invisível. Dribla credores, zomba da verdade e gaba-se de sua promiscuidade. Até a campanha, nunca havia falado tanto em religião. Os resultados eram interessantes. Referia-se aos sacramentos como se fossem pets: “meu vinhozinho”, “meu pãozinho”. Minha favorita de suas meditações espirituais surgiu quando lhe perguntaram: “O que é Deus para o senhor?”. A resposta foi: “Deus é o máximo. Nada nem ninguém é igual a Deus”. 

Os anjos choraram. E os eleitores evangélicos o prestigiaram, fenômeno para o qual houve uma enxurrada de análises. Achamos que não foi pela audaciosa pantomima de Trump sobre Deus.

Talvez seu maior talento, politicamente falando, seja a pronta disposição para assumir qualquer papel que julgar necessário, não importando quão ridículo - e sua certeza de que vai convencer. O passado não é problema. A realidade não atrapalha. E nada, nem mesmo a religião, é sagrado. Trump só se curva a seus propósitos, e proclama isso. Num dia ele é democrata; no seguinte, é republicano. Num dia, usa coisas feitas na China; no outro, ataca a terceirização. Num dia, sua bíblia é A Arte da Negociação; no outro, a própria Bíblia é seu mundo e ele sai promovendo a piedade.

Conseguirá Trump ser absolvido dos pecados? Não posso prever o julgamento celestial, mas neste reino temporal, as probabilidades não são boas. Os fatos vêm se mostrando tão importantes quanto as atitudes. Cada hora traz um novo sofrimento para seu governo. Um promotor especial já está em ação. Palavras como “Watergate” e “obstrução de Justiça” pairam no ar. Se eu fosse Trump, também estaria fora do país. E, sem dúvida, rezaria. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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