Uma rara visão dos atritos China-EUA

Sem cair na ladainha nacionalista de Pequim, analista chinês com fontes nos dois países foge da conversa oficial de cooperação mútua e lança visão crua da relação binacional

É JORNALISTA, JANE , PERLEZ, THE NEW YORK TIMES , É JORNALISTA, JANE , PERLEZ, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2012 | 03h04

Os altos escalões do governo chinês veem cada vez mais a competição entre os EUA e a China como um jogo em que tudo que um ganha o outro perde na mesma proporção, em que a China aparece como provável vencedora no longo prazo se a economia e o sistema político doméstico americanos continuarem cambaleando, segundo um influente analista político chinês.

A China vê os EUA como uma potência decadente, mas acredita, ao mesmo tempo, que Washington está tentando contra-atacar para minar, e mesmo barrar, o crescimento econômico e militar que apontam para a China se tornar o país mais poderoso do mundo. A avaliação é do analista Wang Jisi, coautor de Addressing U.S.-China Strategic Distrust (Para enfrentar a desconfiança estratégica EUA-China, em tradução livre), uma monografia publicada nesta semana pela Brookings Institution em Washington e o Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais da Universidade de Pequim.

Wang, que tem uma visão de dentro da política externa chinesa pelos cargos que ocupou em conselhos consultivos do Partido Comunista Chinês e do Ministério de Relações Exteriores, contribuiu com uma avaliação da política chinesa ante os EUA. Kenneth Lieberthal, diretor do Centro para Estudos Chineses John L. Thornton da Brookings e um ex-membro do Conselho de Segurança Nacional durante a presidência de Bill Clinton, complementa o livro com a avaliação da atitude de Washington ante a China.

Numa conclusão conjunta, os autores dizem que o nível de desconfiança estratégica entre os dois países se tornou tão corrosivo que, se não for corrigido, os países correm o risco de se tornar antagonistas abertos.

Os EUA não são mais vistos como "tão admiráveis, nem são confiáveis, e seu exemplo ao mundo e suas recriminações à China deveriam, portanto, ser relativizados", escreve Wang da visão geral da liderança chinesa.

Em contraste, a China tem uma autoconfiança crescente em seus progressos econômicos e militares, particularmente a redução da diferença de poder desde o início da guerra do Iraque. Em 2003, ele argumenta, o produto interno bruto dos EUA era oito vezes maior que o da China. Hoje, é menos de três vezes maior.

A escrita franca de Wang é chocante em razão da influência e do acesso que ele tem, tanto em Washington como em Pequim. Wang, reitor da Escola de Estudos Internacionais na Universidade de Pequim e professor convidado na Universidade de Defesa Nacional do Exército de Libertação Popular, tem amplo acesso a dirigentes políticos americanos influentes, o que faz dele um depósito incomum de informações sobre o pensamento de ambos os países. Wang disse que não buscou aprovação do governo chinês para escrever o estudo, nem consultou o governo sobre ele.

É bastante raro um analista chinês que não faça parte da estridente ladainha nacionalista livrar-se da conversa oficial de cooperação mútua tanto dos EUA como da China.

Tanto Wang como Lieberthal argumentam que, por baixo da superfície, ambos os países veem perigos profundos e motivações ameaçadores nas políticas do outro. Wang escreve que a liderança chinesa, respaldada pela mídia noticiosa doméstica e o sistema educacional, acredita que chegou a vez da China no mundo. Os EUA é que estão "no lado errado da história". O tempo de "manter um perfil baixo", uma expressão cunhada pelo líder chinês Deng Xiaoping em 1989, e mantido até agora pelo presidente de saída, Hu Jintao, acabou, adverte Wang.

"Agora é uma questão de quantos anos, e não quantas décadas, até a China substituir os EUA como a maior economia do mundo", acrescenta.

Os êxitos financeiros da China, a começar pela travessia da crise financeira asiática de 1998 e a crise financeira global de 2008, a realização de eventos como os Jogos Olímpicos de Pequim de 2008 e a Expo Xangai em 2010, contrastam com o déficit "alarmante", a recuperação econômica morosa e a política doméstica polarizada dos EUA, diz Wang. Ele não trata de frente do poderio muito superior dos EUA em armamento militar. Mas observa que Pequim desenvolveu tecnologia espacial, de foguetes e sistemas sofisticados de armas sem "os EUA ou a ordem mundial liderada pelos americanos".

Em face dos pontos fortes da China, e dos temores de que os EUA serão desalojados de sua posição de primazia mundial, Washington está envolvido em atividades que incluem o aumento da espionagem por aviões e navios americanos ao longo de fronteiras da China, o que irrita os chineses, particularmente seus militares, escreve Wang.

A promoção de direitos humanos na China por organizações não governamentais com respaldo americano é vista como um esforço para "ocidentalizar" o país e solapar o Partido Comunista, uma posição que o país não tolerará, diz ele.

O fato de a China estar cada vez mais confiante de que prevalecerá no longo prazo contra os EUA é sustentada, em parte, pela avaliação que Lieberthal faz da política americana para com a China. Lieberthal cita descobertas da inteligência americana com base em discussões internas entre autoridades chinesas influentes de que essas autoridades assumem uma forte "abordagem soma zero" quando discutem questões direta e indiretamente associadas às relações sino-americanas.

Por serem comunicações privilegiadas não destinadas ao consumo público, as autoridades americanas as interpretam como "particularmente reveladoras dos 'reais' objetivos da China", ele escreve.

Por sua vez, as agências de aplicação da lei americanas veem um aumento alarmante da contraespionagem e de ciberataques chineses contra os EUA conduzidas, segundo elas, pelas autoridades chinesas para recolher informações de interesse nacional.

Num seminário na semana passada na Universidade Tsinghua em Pequim, onde a Brookings financia um centro de estudos, Lieberthal disse que havia uma crença crescente em ambos os lados de que os dois países se tornariam "antagônicos em 15 anos".

Isso significaria grandes despesas militares por ambos para se dissuadirem mutuamente e pressionarem outros países a tomar partido. "O pior caso é que isso poderá acarretar um verdadeiro conflito armado, embora esse não seja, de maneira alguma, consequência necessária do antagonismo mútuo", disse Lieberthal numa entrevista. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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