Uma rede de terror armada por Chávez ameaça os EUA?

Venezuelano demonstra que tem confiança de terroristas

Roger Noriega, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2011 | 00h00

A viagem do presidente Barack Obama à América do Sul mostrou a possibilidade de promissoras parcerias no Brasil e em outros países do continente. Entretanto, sua visita deveria chamar também as atenções dos EUA para o fato de que Irã e Venezuela conspiram para semear o terrorismo proxy de Teerã na região.

No dia 22 de agosto de 2010, por sugestão do Irã, o presidente venezuelano Hugo Chávez recebeu representantes do alto escalão do Hamas, Hezbollah e da Jihad Islâmica Palestina para uma cúpula secreta na sede da inteligência militar em Fuerte Tiuna, no sul de Caracas. Entre os presentes estava o secretário-geral da Jihad Islâmica Palestina, Ramadan Abdullah Mohamed Shallah, um dos terroristas mais procurados pelo FBI; o líder supremo do Hamas, Khaled Meshal, e o "chefe de operações" do Hezbollah, cuja identidade é um segredo cuidadosamente guardado.

A ideia da cúpula surgiu numa reunião entre o embaixador do Irã na Síria, Ahmad Mousavi, e seu colega venezuelano, Imad Saab Saab, da Embaixada da Venezuela em Damasco, no dia 10 de maio de 2010. Segundo o relatório recebido pelo chanceler venezuelano, os dois enviados discutiram a possibilidade de um encontro entre seus presidentes e o líder do Hezbollah, Hasan Nasrallah, e o iraniano sugeriu que os três se reunissem com Chávez em Caracas.

O fato de esses infames criminosos saírem de seus refúgios tradicionais demonstra a confiança que eles depositam em Chávez e a determinação de cultivar uma rede de terror às portas dos Estados Unidos.

Segundo o regime venezuelano, os preparativos para o conclave de agosto foram feitos pelo segundo diplomata em importância de Chávez na Síria, Ghazi Nassereddine Atef Salame, um libanês naturalizado venezuelano que dirige o Hezbollah na América do Sul.

Um documento fornecido recentemente por um diplomata venezuelano de alto escalão indica que Nassereddine tem negócios com quatro companhias operadas por Walid Makled, um traficante de cocaína indiciado nos EUA e detido na Colômbia.

Em uma série de entrevistas feitas na prisão, Makled admitiu ter vínculos com o narcotráfico. E afirmou que tem documentos e vídeos que comprovam a cumplicidade do comandante militar de Chávez, Henry Rangel Silva, e de outros chavistas amigos do presidente no contrabando de cocaína.

As autoridades colombianas afirmam que terão de extraditar Makled para a Venezuela, sua terra natal, para que ele responda a uma acusação de assassinato, enquanto diplomatas americanos concluíram que é inútil continuar pressionando para que sua extradição seja concedida para que ele responda por narcotráfico.

Entretanto, a revelação de que Makled pode lançar alguma luz sobre a rede do Hezbollah de Nassereddine deveria encorajar os diplomatas americanos a renovarem seus esforços para conseguir sua extradição para os EUA.

O perigo de uma rede terrorista operando nas Américas é concreto. Em maio, Mohamed Saif-ur-Rehm Khan, um paquistanês que solicitou o visto para os EUA na Embaixada Americana no Chile, foi detido quando a polícia detectou traços de materiais usados na fabricação de bombas em suas mãos. Autoridades americanas descobriram o vínculo de Khan com o grupo islâmico Jamaat al-Tabligh.

Não se sabe ao certo até que ponto os investigadores chilenos foram informados sobre isso. Na falta de provas para processar Khan, autoridades chilenas o libertaram em janeiro e ele deixou o país rumo à Turquia. Uma fonte chilena de alto escalão me informou que, antes da prisão, Khan estava associado com pessoas de origem egípcia, saudita e libanesa - muitas das quais tinham passaporte venezuelano. Um dos funcionários acusados de emitir esses documentos de identidade venezuelanos para estrangeiros suspeitos é pessoa de confiança de Chávez, Tarek Zaidan el-Aissami.

El-Aissami, que é também ministro do Interior da Venezuela, é de origem síria. Seu pai é conhecido por ter elogiado publicamente Saddam Hussein e Osama bin Laden. Seu irmão, Firaz, está associado ao contrabandista Makled.

A ameaça representada por terroristas que viajam pelo mundo está sempre presente. Um agente americano afirmou, em janeiro, que dois membros da Al-Qaeda estavam em Caracas planejando um ataque "químico" à embaixada americana.

No dia 31 de janeiro, a embaixada foi fechada e informações falaram em "ameaças prováveis". Segundo soube de uma fonte do governo venezuelano, dois iranianos que se dedicam ao treinamento de terroristas estão em Ilha Margarita, na Venezuela, treinando agentes que chegam de toda a região. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

FOI EMBAIXADOR DOS EUA NA OEA E SECRETÁRIO DE ESTADO ADJUNTO

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