Uma reforma necessária

Sistema atual faz com que americanos lutem ao mesmo tempo contra doenças e seguradoras, que tentam reduzir benefícios dos que precisam de tratamentos longos

Nicholas D. Kristof, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2010 | 00h00

A reforma da saúde está sempre presente para mim, não apenas por causa do estardalhaço no Capitólio, mas também porque um casal que eu conheço, antigos vizinhos meus, está passando por um sofrimento tal que família nenhuma poderia suportar. Zack Liu e Jan Li moravam com duas filhas perto da minha casa. Há cerca de dois anos, mudaram-se para Hong Kong, pagando US$ 4.500 ao ano pela apólice de seguro-saúde para Jan e as meninas (Zack tinha a cobertura da empresa onde trabalhava). Em 24 de abril do ano passado, seu mundo desmoronou: os médicos diagnosticaram um câncer em metástase no estômago de Jan.

Os adversários da reforma argumentam: quem gosta do Departamento de Veículos Automotores (DVA) adora Obama. Mas, como mostra o drama de Zack e de Jan, os únicos burocratas mais insensíveis que os do DVA são os que trabalham para as companhias de seguros.

O sistema atual é absurdo: dependemos de companhias de seguros cujo modelo de empresa tem como base aceitar os prêmios pagos pelos ricos e em imaginar maneiras de excluir da cobertura os que precisam desesperadamente de cuidados.

O estômago de Jan foi retirado, e ela teve de se submeter a uma longa quimioterapia. Em outubro, os médicos descobriram que o câncer havia se espalhado para os intestinos. Ela está hospitalizada desde então.

A seguradora é a InterGlobal, com sede em Londres, e a apólice cobria aparentemente custos de até US$ 1,7 milhão. Mas, segundo Zack, a companhia disse que, de acordo com a apólice, podia tirar Jan do plano porque ela tinha uma "doença crônica". E parou de pagar suas contas em janeiro, diz Zack.

Falei com Sophie Walker, diretora do departamento de reclamações da InterGlobal. Ela disse que não podia falar de um caso individual, mas explicou em um e-mail que, em caso de uma "doença crônica", as apólices têm um limite muito inferior, US$ 85 mil. Foi este o limite dado a Jan em janeiro.

Então a sra. Walker me deu a definição da companhia para doença crônica. "É crônica a doença que apresenta pelo menos uma das seguintes características: não tem tratamento conhecido; poderá voltar a aparecer; exige tratamento paliativo; precisa de tratamento/monitoramento prolongado; é permanente; exige treinamento/reabilitação com especialistas; é causada por mudanças irreversíveis do organismo." Traduzindo, nós pagamos para ter assistência médica enquanto não temos qualquer doença que possa exigir tratamento caro. Aí, a seguradora cortará nossas pernas.

Perguntei à InterGlobal se esta era a tradução certa. Observei que, de acordo com a sua definição, câncer, cardiopatias, derrames, diabetes e mesmo o pé de atleta parecem doenças "crônicas". Pedi à InterGlobal que mencionasse uma doença grave que não considerava "crônica".

O e-mail seguinte foi redigido pelo diretor executivo da companhia, Stephen Hartigan, que disse que, como estava "decepcionado" com o tom das minhas perguntas, não tinha mais nenhum comentário a fazer.

Zack e Jan são um caso especial em termos de assistência médica. Embora eles e as filhas sejam cidadãos americanos, moram no exterior e lutam com uma seguradora sediada no exterior. Mas sua situação desesperadora revela a fragilidade intrínseca de todo sistema que permite que dependamos da magnanimidade de seguradoras que vivem em função do lucro.

Os que se opõem à reforma argumentam que os prontos-socorros estão sempre disponíveis para os que não têm cobertura. O que parece leviano para uma mulher com câncer no estômago. Aliás, os prontos-socorros não podem atender às necessidades maiores de tratamento dos 75 milhões de americanos que não têm seguro ou cujo seguro é insuficiente. O enigma é o seguinte: é do interesse das seguradoras excluir os doentes, enquanto é do interesse nacional fazer com que eles tenham cobertura. É a coisa certa a fazer.

Alerta. Como o Instituto de Medicina, um ramo da Academia Nacional de Ciência dos EUA, declarou em um documento histórico, em 2009: "A falta de seguro-saúde é um risco para a sua saúde." Entre os vários estudos que o demonstram há um realizado em Kentucky. Ele concluiu que o câncer é detectado mais tarde nas mulheres que não dispõem de cobertura - estas têm 44% mais probabilidades de morrer de câncer de mama. Outro estudo concluiu que, para os americanos adultos na faixa de 55 a 64 anos de idade, a falta de cobertura é "a terceira na lista das principais causas de morte das doenças cardíacas e do câncer". Em suma, anualmente morrem de 20 a 45 mil americanos por falta de seguro saúde. O que está em jogo é isto. Há um número absurdo de americanos que lutam simultaneamente com a morte e com as seguradoras, como Zack e Jan. Esta situação precisa acabar. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA E GANHADOR DE DOIS PRÊMIOS PULITZER

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