Uma retórica que traz inquietação aos investidores

Análise: Liz Alderman / NYT

O Estado de S.Paulo

07 Maio 2012 | 03h01

De todas as mudanças que atingiram a Europa nos últimos anos, a de ontem, na França, onde François Hollande se prepara para assumir a presidência pode se mostrar a mais fundamental delas. Nas ruas de Paris, multidões celebravam a vitória de Hollande, mas, com a crescente inquietação quanto ao futuro do euro, os investidores internacionais se mostraram mais aflitos.

Hollande lançou uma campanha que capturou a imaginação de um público que se sentia ameaçado pela austeridade. Mas os investidores temem que o presidente eleito dedique mais tempo do que deveria às tentativas de reanimar uma economia morosa, em vez de promover as reformas no mercado de trabalho e no empresariado que são apontadas pelos economistas como extremamente necessárias para a França se o país quiser recuperar a competitividade e escapar dos recorrentes problemas que afetam o euro.

"Os mercados não vão atacar a França imediatamente", disse Jacob Funk Kirkegaard, pesquisador do Instituto Peterson de Economia Internacional, de Washington. "Mas, se Hollande não agir desde o início, existe o risco de a França se converter no próximo doente da Europa." Não se sabe se Hollande - ou algum outro líder francês - será capaz de conquistar a confiança dos investidores; o desemprego está em 10%, o mais alto em 10 anos, e a dívida nacional cresceu muito, chegando a 86% do PIB, bem acima dos 78% do PIB da dívida alemã.

Sob o governo de Nicolas Sarkozy, o déficit se tornou um dos maiores na zona do euro. Ao menos uma das agências de classificação de crédito rebaixou a nota dos papéis da dívida francesa, antes avaliados como AAA, por causa da preocupação com a deterioração nas finanças. Hollande prometeu restaurar o equilíbrio político na França, em parte ao contrariar a austeridade que a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, defendem como solução para a crise do euro. Os planos de Hollande incluem o fim de isenções fiscais concedidas por Sarkozy aos mais ricos e o aumento nos investimentos do Estado, em parte por meio da criação milhares de empregos no setor público.

A retórica de sua campanha já tinha inquietado alguns investidores, que recentemente causaram um aumento no custo pago pela França pelo crédito em decorrência da preocupação com a possibilidade de estarem subestimando o possível alto custo de alguns dos programas do novo presidente. Os investidores temem que ele não consiga deter a erosão da competitividade entre as empresas francesas, nem o crescimento do déficit em conta corrente nem o declínio nas exportações.

Ao mesmo tempo, apesar de toda a retórica populista, Hollande conhece os limites, dizem os economistas. No fim, é improvável que ele pressione por grandes aumentos nos gastos que acabariam levando os mercados financeiros a atacarem a França de maneira semelhante à sua recente ofensiva contra a Espanha.

"Os socialistas franceses desejam o equilíbrio nas contas públicas no médio prazo, algo bastante novo", disse Dominique Barbet, economista do BNP Paribas em Paris. "O desafio está em como chegar a este resultado", disse ele. "É claro que os mercados prefeririam uma abordagem conservadora que falasse em cortes nos gastos e aumentos nos impostos, e não a clássica abordagem socialista, que recorre mais amplamente aos aumentos nos impostos." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.