Uma revolução de valores

Sentimento de impotência que antes dominava egípcios deu lugar a uma repentina noção de poder; o Cairo virou o lugar da gritaria

Roger Cohen, The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2011 | 00h00

Encontrei aqui um executivo de um banco de investimentos, de 42 anos, que estudou na Harvard Business School, trabalhou no Goldman Sachs e vive em Londres, onde tem um bom emprego e reside num belo local em South Kensington. Seus olhos inflamam. Quando viu pela TV o protesto do dia 25, largou tudo, conseguiu uma licença e veio para o Cairo devotar suas energias à liberdade. Era hora de reagir ou calar.

Há inúmeros profissionais egípcios como ele, encolerizados com o potencial do Egito e indignados com o fato de serem comandados por um líder arcaico. Ele me escreveu: "É irônico, o Ocidente desperdiça bilhões no Egito, por meio de organizações não governamentais e assistência, tentando ajudar a melhorar a educação, aprimorar nosso senso de responsabilidade cívica, criar os valores de uma sociedade civil, como propriedade, cidadania, direitos humanos. Mas jamais entenderam que, se nós realmente tivéssemos liberdade, bastaria um dia e uma noite para ver a transformação - faríamos tudo isso por nós mesmos, se nos sentíssemos livres".

A revolução de valores é extraordinária. Ela nasceu de um repentino sentimento de poder que ocupou o lugar da impotência. O Cairo tornou-se o lugar dos empurrões, da gritaria e da desordem por excelência.

Agora, longas filas formam-se para entrar na Praça Tahrir. Existem até contêineres separados na praça para se depositar lixo orgânico. Pessoas reprimidas descarregam sua ira nos que estão à sua volta. O povo libertado descobre o orgulho. O Cairo comemora sua repentina adesão ao povo e não às figuras paternais do regime que ainda se colocam como o único dique protegendo o país do caos islâmico. Essa premissa para o exercício do poder pelo medo está esgotada. Dignidade e humor percorrem o Nilo, persistentes e contagiantes.

Um homem ronda a praça Tahrir com um saco de lixo preto. "Presidente Hosni Mubarak?", ele pergunta. "Você tem algum Mubarak para jogar no lixo?" Um cartaz diz: "Saia, queremos ver a luz". Os soldados olham do alto de seus tanques, com uma expressão tão neutra que não se sabe se são curiosos, oponentes ou simpatizantes. Foram treinados para defender a nação; a nação está mudando.

Conversei com uma jovem de 24 anos, Perihane Allam. Ela estava espantada com a mudança no comportamento das pessoas. O assédio sexual é um grande problema no Cairo. "Os homens sempre me ofendem na rua, dizendo coisas." Nada disso ocorre na Praça Tahrir, ela disse, "ou em qualquer parte da cidade, atualmente". A dignidade tem a capacidade de transformar. Também a descoberta de uma identidade egípcia transcendendo as fronteiras religiosas e de classe.

É fácil romantizar. Este momento não durará para sempre. A pobreza e o analfabetismo não vão desaparecer numa explosão de boa vontade. Mas acho que vale apostar no Egito como uma democracia viável no futuro. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA DO "NYT"

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