Uma revolução que está longe de acabar

As instituições democráticas da Rússia foram erguidas sobre uma instável camada de gelo moral e social que os quatro anos de glasnost não conseguiram dissolver

Leo Aron, do The Washington Post, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2011 | 00h00

Há 20 anos, eclodiu na Rússia uma gloriosa revolução. Gloriosa, porque foi quase completamente não violenta e porque nenhum dos que estiveram presentes na época esquecerá a solidariedade, a camaradagem e até mesmo o afeto recíproco entre as pessoas - e em relação à nova Rússia que anteviam com tanto fervor.

Revolução, porque além das centenas de milhares de pessoas reunidas em Moscou, em São Petersburgo, na Praça do Palácio, e em quase todas as cidades mais importantes houve comícios contra o golpe de Estado empreendido pela linha dura e a favor de Boris Yeltsin e Mikhail Gorbachev. A revolução introduziu um novo sistema político, mudou as bases econômicas do país e criou um novo Estado: a Rússia pós-imperial.

Aonde foi tudo isso? O que foi feito do nobre fervor, da clareza moral, da sede de verdade, do heroísmo? Em primeiro lugar, nenhum considerável segmento da população em qualquer país é capaz de alimentar para sempre o calor de um movimento revolucionário. As pessoas deixam as praças e vão embora para casa; elas precisam trabalhar e têm família para sustentar. O que acontece depois depende de incontáveis contingências, mas dois fatores destacam-se: poder contar com uma boa liderança, e a tradição política nacional.

Considerando o material humano deixado por 70 anos de um regime venenoso e violento, a Rússia teve muita sorte de poder contar com Yeltsin. Mas o gigante cheio de defeitos não foi suficiente para superar os séculos de governo autocrático, e de subserviência, irresponsabilidade, corrupção e cinismo criados nas bases pelo comunismo totalitário. As instituições democráticas foram erguidas sobre uma instável camada de gelo moral e social quase permanente, que os quatro anos de glasnost não conseguiram dissolver.

Como a cabana de Baba Yaga, do folclore russo, este edifício erguia-se sobre palafitas muito finas e alicerces mínimos, vulnerável à sabotagem ou mesmo à eliminação. Desde então, as tradições políticas nacionais foram em grande parte responsáveis pela deterioração ou pela total subversão das revoluções "coloridas" da Ucrânia, Geórgia e Quirguistão depois do colapso da União Soviética - e provavelmente constituirão um formidável obstáculo para cumprir a promessa da primavera árabe.

Descompasso. Não seria a primeira vez que a sociedade civil está em descompasso com as mudanças políticas trazidas por uma revolução. Quase 40 anos passaram-se entre a decapitação de Carlos I na Grã-Bretanha e a Gloriosa Revolução original, que abriu o caminho a uma monarquia limitada por um poderoso Parlamento. Na França, foram quase 50 anos entre a Primeira e a Segunda República (período que englobou o Terror, a ditadura e o Império), e então mais 18 até chegar ao governo republicano em 1870.

Portanto, ainda não lamentem a revolução de 1991. Principalmente porque sob a carapaça da restauração de Putin, os russos em silêncio, mas com obstinada determinação, estão forjando uma sociedade civil moderna, abrandando o terreno pós-comunista, tornando-o capaz de sustentar uma democracia.

Milhões de pessoas trabalham como voluntárias para ajudar seus compatriotas, e dezenas de milhares contribuem para organizações de ajuda (agora cada vez mais online). Mas o que é talvez mais promissor, milhares optaram por tornar sua presença mais ativa: a defesa de um lago envenenado pelo lixo industrial, a proteção de uma floresta da depredação ou edifícios históricos da demolição. Elas ajudam estranhos a se defender de propostas hostis ou de funcionários gananciosos e incompetentes, ou de policiais rodoviários corruptos.

Elas querem que os pilantras sejam punidos e os tribunais trabalhem com lisura. No meio tempo, neste marasmo de cinismo, desconfiança, ladroeira e inépcia, elas criam ilhas, quem sabe até, em breve, arquipélagos de confiança, competência, autoconfiança, respeito próprio e responsabilidade para o seu país.

Como pude constatar viajando de Vladivostok a Kaliningrado, em julho, para entrevistar líderes e ativistas de meia dúzia de movimentos sociais, estas pessoas estão criando mais do que redes sociais e políticas: estão instilando no país uma sensibilidade social vital, que não escasseava em 1991.

Rompendo com a tradição nacional, o Estado para elas não é uma entidade assustadora ou ameaçadora. Sua atitude para com o governo não é a de lacaios para com o patrão - desprezando, mas ao mesmo tempo cobiçando sua posição. Estas pessoas são calmas, pragmáticas e, no entanto, intransigentes. Para elas, a sociedade e Estado estão no mesmo pé de igualdade. Podem até apoiar o regime quando este faz algo útil, mas são francos em suas críticas e corajosos nos protestos públicos, quando estão convencidos de que prejudica os interesses do país.

Nova ordem. Acima de tudo, acreditam que para que surja na Rússia um bem social sustentável, não será por um decreto, de cima para baixo, mas ele brotará "de baixo" - com os russos recriando-se mutuamente numa sociedade disposta a controlar o Executivo e capaz de fazê-lo.

Durante os cinco anos nos quais mergulhei totalmente na era da glasnost para escrever um livro, achei fascinante que estes jovens, homens e mulheres, na maioria adolescentes no final dos anos 80, ou mesmo recém-nascidos, falassem intuitivamente a linguagem da glasnost e abraçassem a mesma grande busca moral e intelectual: Quem somos e o que queremos para nosso país? Como vivemos no plano da moral e da honra - como indivíduos e como povo? Qual é a relação adequada entre o homem e o Estado? Como podemos ter a certeza de que somos governados de maneira honesta e nosso governo ouve o que temos a dizer?

Como aqueles que tomaram as ruas há 20 anos, os homens e as mulheres que conheci são impulsionados pelo imperativo moral da dignidade na liberdade e pela cidadania. Não se surpreendam se eles forem para as "Praças Tahrir" da Rússia para retomar o movimento não violento de reconstrução da Rússia, iniciado há 20 anos.

E eles irão para as praças e ruas. Enquanto isso, eles se harmonizam em termos existenciais e morais com a "democracia soberana", com o "poder vertical" ou qualquer outro eufemismo inventado no Kremlin para mascarar a essência autoritária do "putinismo".

A revolução de 1991 morreu? Viva a revolução! / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É DIRETOR DE ESTUDOS RUSSOS DO AMERICAN ENTERPRISE INSTITUTE. SEU LIVRO "ROADS TO THE TEMPLE: MEMORY, TRUTH, IDEAS AND IDEALS IN THE MAKING OF THE RUSSIAN REVOLUTION, 1987-1991", SERÁ LANÇADO NO INÍCIO DO PRÓXIMO ANO.

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