Uma saída para a América Central

Ajuda financeira americana pode promover economia da região para diminuir o fluxo de imigrantes para os EUA

JOE BIDEN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2015 | 02h05

As milhares de crianças desacompanhadas que se apresentaram na nossa fronteira no ano passado são um lembrete de que a segurança e prosperidade da América Central estão intrinsecamente ligadas à segurança e à prosperidade do nosso país. As economias de El Salvador, Guatemala e Honduras continuam numa situação crítica, enquanto o restante das Américas avança. Educação insuficiente, corrupção institucional, aumento vertiginoso da criminalidade e falta de investimentos mantêm estes países em atraso.

Nos próximos dez anos, 6 milhões de jovens centro-americanos deverão ingressar no mercado de trabalho. Se não encontrarem nenhuma oportunidade, todo o Hemisfério Ocidental sofrerá as consequências. Enfrentar esses desafios exige acima de tudo uma mudança sistêmica, com a qual os Estados Unidos estão diretamente interessados em colaborar.

Com essa finalidade, o presidente Obama pediu US$ 1 bilhão ao Congresso para ajudar os líderes centro-americanos em suas difíceis reformas e nos investimentos imprescindíveis para procurar solucionar as questões de segurança, governança e as dificuldades econômicas comuns à região. Essa cifra corresponde a cerca de três vezes a ajuda americana fornecida à América Central.

No verão passado, enquanto os nossos países colaboravam para conter o perigoso aumento da migração, os líderes de El Salvador, Guatemala e Honduras pediram uma ajuda extra para enfrentar a violência e a pobreza endêmicas que impedem o seu avanço. Em junho, deixei claro a esses líderes que os EUA estão dispostos a ajudá-los - desde que se compenetrem do problema e procurem solucioná-lo. Obama informou-os de sua decisão quando eles visitaram Washington, em julho.

E os líderes centro-americanos corresponderam. Honduras assinou um acordo com a organização não governamental Transparência Internacional para o combate à corrupção. A Guatemala afastou funcionários de alto escalão suspeitos de corrupção e de colaborar com o tráfico de pessoas. El Salvador aprovou uma lei que prevê maior proteção aos investidores. Colaborando com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), os três países elaboraram um plano conjunto de reformas políticas e econômicas, uma aliança para a prosperidade.

Seus governantes reconheceram que, para tanto, é imprescindível um enorme esforço. De nossa parte, concordamos em intensificar as iniciativas conjuntas nessas três áreas.

Ações. Em primeiro lugar, a segurança torna possível todo o resto. Ajudaremos a estabilizar os nossos vizinhos mediante uma política com base na comunidade e a erradicar as redes criminosas internacionais que transformaram a América Central numa incubadora de contrabando de drogas, tráfico de pessoas e crimes financeiros.

Algumas comunidades da Guatemala e El Salvador já percebem os benefícios dos programas patrocinados pelos Estados Unidos na política da comunidade, na formação de polícias especializadas e de centros para a juventude, semelhantes aos Boys and Girls Clubs nos EUA. Como aprendi na elaboração do projeto de lei sobre criminalidade nos EUA, em 1994, esses programas contribuem de fato para reduzir o crime.

Em segundo lugar, a boa governança produzirá os empregos e os investimentos de que a América Central necessita. Hoje, a sociedade está convencida de que o sistema judiciário, a contratação de empreiteiras pelo governo e a arrecadação de impostos não primam pela transparência e pela isenção. Esses países têm o sistema tributário menos eficiente do hemisfério. Se pretenderam atrair os investimentos necessários para garantir um progresso real e duradouro, terão de arrecadar e administrar suas receitas de maneira eficiente e transparente.

Em terceiro lugar, mesmo com a assistência dos EUA e da comunidade internacional, os recursos públicos são insuficientes para atender às enormes necessidades econômicas. As economias da América Central só poderão crescer se atraírem investimentos internacionais e convencerem seus cidadãos a investir internamente.

Isso exige a elaboração de normas e regulamentações claras, a proteção dos investidores, um sistema jurídico em que seja possível confiar quando se trata de julgar as disputas de maneira clara, sérios esforços para erradicar a corrupção, a proteção da propriedade intelectual, e a transparência a fim de garantir que a assistência internacional seja utilizada de maneira responsável e eficiente.

Estamos dispostos a colaborar com as instituições financeiras internacionais e com o setor privado para ajudar estes países a oferecer uma formação adequada à sua juventude, facilitar a criação de empresas, e garantir que os empreendimentos locais se beneficiem ao máximo dos acordos de livre comércio.

As dificuldades que os aguardam são formidáveis. Mas se existir vontade política, não haverá nenhuma razão para que a América Central não possa se tornar a próxima região bem-sucedida na história do Hemisfério Ocidental.

Esta área já testemunhou anteriormente uma transformação. Em 1999, lançamos o Plano Colômbia para combater o narcotráfico, a pobreza e a corrupção institucional - juntamente com um dos mais cruéis movimentos de insurreição - que ameaçavam levar a Colômbia ao colapso. Quinze anos mais tarde, a Colômbia é uma nação totalmente mudada.

Fui um dos arquitetos do Plano Colômbia no Senado americano, e me dei conta de que o principal motor é a vontade política. A Colômbia teve a felicidade de poder contar com líderes que tiveram a coragem de introduzir consideráveis mudanças no campo da segurança, da governança e dos direitos humanos. Suas elites concordaram em pagar impostos mais elevados. O governo colombiano fez uma limpeza em seus tribunais, organizou sua polícia e reformou as regras do intercâmbio para abrir sua economia. Os Estados Unidos investiram US$ 9 bilhões no Plano Colômbia: US$ 700 milhões no primeiro ano. Mas os nossos dados mostram que a Colômbia gastou quatro vezes mais do que nós gastamos.

Hoje, o custo dos investimentos da nova América Central - segura e próspera - é modesto em comparação com o que se paga com o alastrar-se da violência e da pobreza.

O presidente Obama pediu-me que liderasse essa nova iniciativa. Pela primeira vez, podemos prever e trabalhar para que a América Central passe a ser constituída fundamentalmente por uma classe média, e por países democráticos e seguros. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*Joe Biden é vice-presidente dos EUA

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