Uma sociedade com base no mérito

Numa meritocracia, a posição social não é consequência do nascimento e as recompensas vão para quem se distingue

É PROFESSOR DE JORNALISMO NA UNIVERSIDADE COLUMBIA, THOMAS B., EDSALL, THE NEW YORK TIMES, É PROFESSOR DE JORNALISMO NA UNIVERSIDADE COLUMBIA, THOMAS B., EDSALL, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h06

Mitt Romney é um evangelista do capitalismo. "A livre empresa ainda é a maior força da mobilidade social, da segurança econômica e da expansão da classe média", disse ele no mês passado durante a convenção da Associação Nacional para a Promoção das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês), em Houston.

Em discurso em Washington, em dezembro, Romney descreveu sua sociedade ideal: "Em uma sociedade com base no mérito, as pessoas alcançam sucesso e recompensas por meio de trabalho duro, educação, por assumir riscos e um pouco de sorte. Os fundadores dos EUA consideravam que esse princípio fora dado por nosso Criador e o chamaram de 'busca da felicidade'. Nós o chamamos de oportunidade ou de liberdade de escolher nosso caminho na vida. Uma sociedade das oportunidades com base no mérito produz uma cidadania que desbrava, que inventa, que constrói e cria. E, à medida que as pessoas se esforçam e assumem os riscos inerentes à invenção e à criação, empregam e elevam o restante de nós, criando prosperidade para todos".

Numa meritocracia, as qualificações formais oferecem oportunidades. A posição não é mais atribuída por nascimento e as recompensas vão para os que se distinguem. A competição meritocrática como meio dominante da estratificação social nos EUA foi saudada como um avanço bem-vindo, pois substituiu uma sociedade dominada por uma classe alta dependente de riqueza e de status herdados.

Essa transição para a meritocracia, porém, trouxe consequências inesperadas. No setor empresarial, surgiram outras qualidades menos benignas como fundamentais para o sucesso: agressividade, inclemência, comportamento persecutório e busca do interesse próprio.

Nas duas últimas décadas, titãs corporativos usaram o poder político para reduzir ao mínimo a taxação de suas principais fontes de renda, recebendo taxas preferenciais sobre dividendos e ganhos de capital - e quase eliminaram a taxação sobre a transferência de riqueza intergeracional. O setor financeiro usou seu poder para obter uma enorme vantagem ao persuadir o governo a desmantelar boa parte da estrutura regulatória federal.

Richard Freeman, economista de Harvard, argumenta que um sistema com base no mérito pode rapidamente se converter numa sólida hierarquia como consequência da acumulação de riqueza excessiva. "O maior perigo é que essa grande desigualdade crie uma sociedade em que abastados capitalistas dominem as políticas corporativas e governamentais e usem sua riqueza para subverter a competição do mercado e corromper a democracia para manter sua posição no topo da hierarquia da renda."

As contribuições de campanha estão entre as principais armas das novas elites. Os setores de finanças, seguros e imóveis, por exemplo, doaram US$ 25 milhões à campanha de Romney, mais do que qualquer outro setor. O aspecto predatório da competição corporativa "meritocrática" é ilustrado pelos escândalos da Enron e da WorldCom e pelos esquemas fraudulentos de Bernie Madoff.

O uso de contribuições de campanha pelos que se tornaram ricos numa "sociedade de oportunidades" para proteger práticas predatórias pode ser visto em doações recentes de empresas de empréstimos consignados e financiamento de veículos localizadas perto de bases militares.

Em março, a Bloomberg BusinessWeek reportou um aumento das contribuições dessas empresas para um super PAC de Romney. Essas contribuições foram feitas depois que o republicano denunciou o Departamento de Proteção Financeira do Consumidor - que tenta regulamentar os empréstimos consignados - como "a burocracia mais poderosa e menos responsável da história".

Influência. Martin Gilens, cientista político de Princeton, fez um estudo sobre a influência de eleitores de todas as rendas sobre as decisões de políticos eleitos. "Os resultados estão mais relacionados às preferências dos ricos do que às dos pobres ou da classe média. A extensão dessa desigualdade é alarmante: quando as preferências de americanos de baixa ou média renda divergem das dos ricos, não há relação entre os resultados políticos e os desejos dos grupos menos favorecidos. Ao contrário, as preferências dos abastados indicam uma relação substancial com os resultados políticos, sejam essas preferências compartilhadas ou não por grupos de renda mais baixa."

As contribuições de campanha, segundo Gilens, estão relacionadas à influência dos mais ricos sobre a política. "A maior parte do dinheiro doado provém de americanos no topo da escada econômica", escreve.

Não só as propostas fiscais, regulatórias e de gastos de Romney reforçariam a influência sobre a política pública exercida pelos ricos, como deixaria intacto o regime de financiamento de campanha, que dá a corporações, sindicatos e bilionários oportunidades ilimitadas para moldar os resultados eleitorais.

Por mais razoável que possa parecer o apoio de Romney à meritocracia, o que ele está de fato propondo é uma sociedade que premie competidores implacáveis e desconsidere perdedores. É precisamente esse aspecto que o tornou vulnerável aos democratas.

Romney continua viável (apenas 4 pontos porcentuais atrás de Obama) contra um presidente prejudicado por uma economia estagnada e um desemprego de 8,3%. Um candidato republicano com uma compreensão um pouco mais matizada das dificuldades dos que foram deixados para trás pela elite meritocrática, possivelmente, venceria.

Romney, porém, é prisioneiro de um Partido Republicano em evolução radical, bem descrito por Thomas Mann e Norman Ornstein no livro It's Even Worse Than It Looks (É ainda pior do que parece, em tradução livre).

"Um dos dois grandes partidos, o republicano, tornou-se um insurgente atípico, ideologicamente extremado, que deprecia o regime de política social e econômica herdado, não se convence por fatos e desconsidera a legitimidade de sua oposição. Quando um partido se afasta tanto do centro da política americana, é extremamente difícil levar adiante políticas que enfrentem os desafios mais prementes do país." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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