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Uma sociedade democrática e moderna

O melhor caminho para tirar um país da pobreza é arrancar a economia das mãos do Estado

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 06h57
Atualizado 21 de novembro de 2021 | 16h34

Notável em nossa época não é que haja países ricos, é que haja países pobres. Como isso se explica? Explica-se porque o populismo, a busca do paraíso, os sonhos socialistas ainda continuam vivos, apesar dos desmentidos que lhe deram a realidade em todas as tentativas já ocorridas de organizar a sociedade de acordo com esses ideais. Esse erro, sobretudo no campo político, continua fazendo das suas, principalmente nos países subdesenvolvidos. E de imediato não passa a impressão de que aquilo pudesse variar.

O que deve fazer um país para sair da miséria, alcançar o desenvolvimento, criar uma economia ao alcance do grosso da população, permitindo a homens e mulheres lograrem níveis de vida dignos, e a alguns, os mais esforçados ou visionários, a riqueza com a qual as sociedades mais avançadas premiam quem lhes aporta maiores benefícios? Excluo deste artigo todas as atividades ilícitas.

Um país que quer sair do subdesenvolvimento deve abrir sua economia que, em grande parte, se encontre nesta condição por causa de sua estrutura fechada e da asfixia que lhe imprime o Estado, que, geralmente, monopoliza o grosso das atividades econômicas. Enquanto elas estejam controladas pelo Estado, o resultado é invariavelmente a corrupção, o privilégio de uma minoria de burocratas, o atraso científico e técnico, e a dependência do exterior, sua subordinação aos países mais desenvolvidos e prósperos. 

“Abrir a economia” deve-se entender como, fundamentalmente, sua privatização, a transferência de uma economia estatizada para uma economia livre, buscando que seja o conjunto da sociedade civil que faça uso dela e não uma pequena minoria que a possua pelas mãos do Estado, sob a narrativa de servir melhor à maioria. Quantas vezes já ouvimos essa mentira?

A transferência de uma economia estatizada para uma economia livre é relativamente fácil, sempre que o governo esteja orientado nesta direção. E, no mesmo sentido, é indispensável mudar a ideia que as massas e elites danificadas pelo preconceito coletivista fazem do “empresário”. Segundo estas versões, o empresário é um ser egoísta e ávido, que somente pensa em acumular dinheiro, para o que se vale de qualquer artifício e da conduta ilegal, em prejuízo das maiorias esfomeadas. Esta ideia é incorreta. É possível que haja alguns empresários de semelhante mentalidade e, em geral, são pessoas corrompidas por um sistema que estimula os empresários a agir desta maneira. 

Mercados

 Mas, em uma sociedade livre, é o empresário que se adianta na direção do futuro com mais rapidez que seus colegas, observando as necessidades próximas e, pagando seus impostos e criando emprego, facilita o progresso da sociedade. Essa mudança de mentalidade a respeito do empresário é uma das coisas mais difíceis nos países devastados pelo populismo. Mas ocorrerá de maneira irremediável nas sociedades que se “abrem” do confinamento econômico à liberdade.

Abrir-se ao mundo não é apenas desenvolver as empresas privadas dentro dos limites nacionais: é abrir-se a todos os mercados do planeta procurando estabelecer, desde o princípio, lugares onde é possível vender com vantagem os produtos nacionais e adquirir da maneira mais conveniente os que fazem falta no próprio lugar, ou seja, desenvolvendo a economia aproveitando as características mundiais que costumam ter hoje em dia os mercados, diferentemente do passado, quando se encontravam limitados pelos preconceitos da época. Com estas medidas básicas, um país já deveria atrair investimentos estrangeiros.

Existe uma enorme massa de dólares que anda perscrutando o mundo com intenções de investir. Mas não o faz em qualquer parte, com certeza. A frase “não há nada mais covarde do que um milhão de dólares” expressa uma verdade. Aqueles dólares buscam segurança, o apoio de instituições internacionais, antes de se arriscar. Por isso, os países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento devem propor investimentos atrativos e, sobretudo, absolutamente seguros, se quiserem deveras atrair capitais.

Educação

Esta abertura ao mundo corre o risco de estabelecer em um país pobre ganhos desproporcionais, entre alguns setores que avançam muito lentamente e outros velozmente. Daí decorrem as enormes diferenças que, no Chile por exemplo, provocaram aquelas explosões na classe proletária e ex-proletária, que ia em busca da classe média e não podia suportar a diferenciação de ingressos.

Para evitar aquelas diferenças, o liberalismo, motor da democracia, inventou a “igualdade de oportunidades”, uma das essências do progresso, que imprimiu à democracia seus ingredientes de maior justiça social no mesmo processo de ir saindo da pobreza. No campo da educação, por exemplo. Não é justo que o reparto dos benefícios chegue segundo os setores sociais a que pertençam as pessoas. 

Os que foram educados, como ocorre nos setores menos privilegiados, nas escolinhas miseráveis, com professores escassos, sem aparatos técnicos nem bibliotecas, estão condenados a ter os piores empregos e, ao contrário, os jovens de classes privilegiadas, que podem pagar por bons colégios, têm acessos a ofícios e profissões que os impulsionam a ter os melhores salários e constituir a elite da sociedade. 

Um país que busca justiça na liberdade deve gastar somas importantes na criação de uma educação pública de nível muito alto, pagando e preparando os melhores professores e constituindo colégios e escolas capazes de competir com as instituições privadas e superá-las. Muitas pessoas pensarão que se trata de um ideal impossível. Não é verdade. A França teve uma educação pública de altíssimo nível que levou líderes operários a postos principais. E para mencionar um país “subdesenvolvido”, que então não parecia sê-lo, a Argentina, do início do século passado, teve um sistema de educação pública que o mundo inteiro olhava com inveja e admiração.

A igualdade de oportunidades pode funcionar perfeitamente naquele período de abertura, se não quisermos que distorções e desigualdades estropeiem o processo de liberação que empreende um país que quer sair da pobreza. Pode-se aplicar em distintas áreas sociais e não somente na educação, mas é neste campo que é preciso escorar as mudanças, pois é nesta esfera em que se faz sentir mais o privilégio que dão os altos ganhos e as diferenças intelectuais entre os distintos setores sociais. Um país que se “abre” ao mundo e a si mesmo deve gastar grandes quantias, sobretudo na educação, na qual todos os gastos deveriam ser permitidos, dentro do possível, para corrigir o flagelo da desigualdade.

Dramas sociais

É exagerado dizer que a abertura de um país, tanto no campo doméstico como no exterior, é mais difícil, e o país está exposto a sofrer crises, conflitos e dramas sociais. Esta trajetória pode se encurtar ou se estender, de acordo com as condições do país e a lentidão ou rapidez com que se apliquem as mudanças. Estas não deveriam ser tão rápidas que o país não consiga aguentá-las, nem não lentas que passem a impressão de que nada está mudando. Mas não é possível ditar uma fórmula válida a respeito da velocidade das mudanças. Tudo depende dos dirigentes e do grau de entusiasmo com que o grosso da população aceita estas reformas.

O importante é ter em conta aonde se quer chegar. Um país que se “abre” tanto domesticamente quanto no exterior e pretende alcançar o bem-estar e a verdadeira justiça social é capaz de suportar as dificuldades que esse trânsito apresenta. E saber que os únicos países que prosperaram agiram deste modo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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