Uma sociedade sem armas

É hora de os Estados Unidos começarem a falar sobre algo que o lobby armamentista não gosta de mencionar

Fred Hatt*, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2015 | 02h05

Talvez seja o momento de começar a dizer as palavras que a Associação Nacional do Rifle dos Estados Unidos (NRA, na sigla em inglês) tornou impronunciáveis.

Proibição, recompra maciça, uma sociedade sem armas.

Vou repetir: uma sociedade sem armas.

Não parece lógico? Não parece uma coisa segura? Não faria sentido aprender com outras nações desenvolvidas, que acreditam que somente os militares e a polícia deveriam andar armados, quando necessário - e perdem muito menos pessoas inocentes do que as que morrem todos os anos nos Estados Unidos?

Sim, pronunciar estas simples palavras faz a NRA se sentir feliz.

Ela alimenta o argumento falacioso usado pelo lobby das armas para opor-se até às reformas mais comezinhas, mais modestas. Estão vendo? Hoje, é a verificação de antecedentes, amanhã, será o confisco.

Sim, entendo que seria difícil. Trata-se de mudar a cultura e as normas de toda uma sociedade. Levaria tempo.

É que o enfoque gradativo não está dando resultados. Ele estabelece metas cada vez mais modestas, metas cada vez mais polidas: vamos fechar uma brecha aqui, restringir uma arma particularmente letal ali.

Vamos falar da segurança dada pelas armas e da saúde pública. Vamos falar em "reforma" e não em "controle". Em resposta, alguns Estados endureceram as restrições, poucos Estados as abrandaram.

Entretanto, nós, enquanto nação - no âmbito do Congresso - estamos imobilizados.

Por outro lado, a estratégia da reforma modesta tem seus próprios pontos vulneráveis.

Toda vez que há um massacre, os defensores do controle de armas afirmam que o atirador não teria sido impedido de comprar armas ou que esta arma não estaria na lista de armamentos proibidos - e então para que perder tempo (e capital político) com restrições irrelevantes?

Quero deixar claro que estou convencido de que a NRA está errada a este respeito e a Brady Campaign to Prevent Gun Violence está certa.

Restrições modestas podem ajudar, e ajudaram. Uma lei que fixa a compra de uma arma por mês pode reduzir o número de crimes.

A brecha que permite a venda de armas em exposições deveria ser eliminada e sua eliminação impediria que alguns criminosos tivessem acesso a armas. Toda arma existente numa casa com crianças deveria ter uma trava.

No entanto, quantos parlamentares estariam dispostos a correr o risco de perder seus empregos com uma reforma modesta, gradativa, que talvez nem sequer aparecesse como um blip nas estatísticas sobre assassinatos, no ano seguinte? Já sabemos a resposta a esta pergunta.

Muito bem, vocês dirão, mas então, por que estes mesmos parlamentares cometem um suicídio político apoiando algo tão enorme?

Não apoiarão, claro. O Congresso não encaminhará esta mudança. É preciso que haja uma mudança total da cultura. Somente então o Congresso e a Suprema Corte agirão em conformidade.

Transição difícil. Como vimos, nos últimos 15 anos, na questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, esta profunda mudança cultural é difícil - mas possível.

Wyatt Earp (legendário xerife e atirador americano), a mentalidade da fronteira, a violência, até posso entender isto. Mas a Austrália também foi uma nação pioneira e abriu mão das suas armas. As sociedades mudam, as populações evoluem.

E, com o tempo, elas não permanecem imunes à razão. Considerando que muitas criancinhas se matam ou matam seus irmãozinhos acidentalmente, trata-se de uma questão que a família deve resolver.

Considerando os suicídios que poderiam ser evitados, a questão é de saúde mental. Em média, 55 americanos se matam todos os dias. Ressalto: todos os dias!

A Suprema Corte, que não entendeu corretamente a Segunda Emenda em suas sentenças recentes, teria de rever essa questão.

A Corte se corrigiu em outras ocasiões e, se a opinião pública mudar, poderá se corrigir mais uma vez. Se não, mude-se a Constituição.

Parece difícil, eu sei.

Mas é possível que se começássemos a falar mais honestamente a respeito da meta mais lógica, mais a longo prazo, a opinião pública aos poucos mudaria e os ganhos em curto prazo se tornariam maiores, e não menores, como a NRA tentou alegar para se defender. Quem sabe teríamos, no fim, um país mais seguro.

Há fortes argumentos contra ter como meta uma sociedade sem armas, mas há 100 mil argumentos em favor - quantos de nós morrem com um tiro de arma de fogo todos os anos.

Todos os anos, 11 mil americanos são assassinados. Todos os anos, cerca de 20 mil se suicidam com uma arma de fogo.

Mesmo sem armas - apenas com facas de cozinha à mão - algumas dessas pessoas morreriam. Mas a maioria continuaria viva.

Talvez seja o momento de começar a falar sobre a maneira mais lógica de salvar a vida delas./ Tradução de Anna Capovilla

*Fred Hatt é editor da seção de editoriais do 'Washington Post'

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