Uma solução contra o EI

Recuperar milenar conceito islâmico pode ser antídoto para radicalismo

Mustafa Akyol, The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2015 | 06h15

Os recentes massacres em Paris e San Bernardino, na Califórnia, demonstraram mais uma vez a habilidade do autodenominado Estado Islâmico (EI) de conquistar muçulmanos desiludidos. Usando uma mistura de literalismo textual e superioridade moral, o grupo extremista consegue persuadir jovens dos dois sexos, do Paquistão à Bélgica, a jurar lealdade e cometer violência em seu nome.

É por isso que a ideologia religiosa do EI tem de ser levada a sério. Assim como é errado acusar o pensamento do grupo de representar o grosso do Islã, como costuma fazer a islamofobia, também é errado fingir que o EI “não tem nada a ver com o Islã”, como muitos muçulmanos costumam dizer.

Na verdade, líderes jihadistas são versados em pensamento e ensinamentos islâmicos, embora usem seu conhecimento com finalidades brutais e perversas.

Um bom começo para se entender a doutrina do EI é ler a revista digital em inglês Dabiq, que o grupo divulga mensalmente. Um dos mais contundentes artigos que li na revista foi um texto de 18 páginas divulgado em março com o título “Irja – a mais perigosa Bid’ah”, ou heresia.

Se você não tiver conhecimento de teologia medieval islâmica, provavelmente não fará ideia do que irja significa. Literalmente, quer dizer adiamento. Era um princípio teológico lançado por alguns teóricos islâmicos durante o primeiro século do Islã. Na época, o mundo muçulmano vivia uma grande guerra civil, com protossunitas e protoxiitas lutando pelo poder e um terceiro grupo chamado Khawarij (dissidentes) excomungando e massacrando os dois lados. Ante esse caos sangrento, os proponentes da irja diziam que a inflamada questão de quem era verdadeiramente muçulmano deveria ser “adiada” para a outra vida. Mesmo muçulmanos que abandonassem toda prática religiosa e pecassem muito, raciocinavam eles, não poderiam ser denunciados como apóstatas.

Os estudiosos que divulgaram esse pensamento ficaram conhecidos como “murija” ou, simplesmente, “os adiadores”. A teologia por eles esboçada poderia ter sido a base de um Islã tolerante, não coercivo, pluralista.

Infelizmente, eles não tiveram suficiente influência no mundo islâmico. Sua escola de pensamento desapareceu rapidamente, sufocada na memória da ortodoxia sunita como uma das primeiras “seitas heréticas”.

Os murija deixaram sua marca no lado mais tolerante do Islã sunita, representados pelo hanafi-maturidismo, mais popular nos Bálcãs, Turquia e Ásia Central. Hoje, nenhum grupo muçulmano se identifica como murjia.

Então, por que o EI está tão alarmado com essa velha “heresia”? A resposta pode ser encontrada no próprio artigo da Dabiq, em que os autores acusam outros grupos rebeldes islâmicos na Síria de “irja”.

“Essas facções não seguem a sharia, apesar de seu controle dos ‘territórios liberados’”, acusam os redatores do EI. Em outras palavras, a acusação é de não matar “apóstatas”, não adotar punições corporais e não forçar mulheres a se cobrir dos pés à cabeça. Os grupos que o EI acusa de irja provavelmente não aceitariam o rótulo.

Também em seus textos religiosos é provável que irja apareça como heresia. Mas é preciso reconhecer que, ao “adiar” a imposição de religião e a punição de pecadores, esses grupos de fato estão engajados em irja. Talvez não pelos princípios, mas pelo pragmatismo.

De fato, há centenas de milhões de muçulmanos através do mundo também praticando irja, mesmo não familiarizados com o termo. Outros muçulmanos estão sob influência cultural do liberalismo ocidental. Outros são influenciados pelo sufismo, o ramo místico do Islã, que tem mais foco na observância divina do que na estrita aderência a regras e leis.

Em sua condenação à irja, o EI também visa aos muçulmanos tolerantes. Como um desses muçulmanos, convoco os correligionários com ideias semelhantes a ostentar com orgulho o emblema da irja – e renovar o conhecimento. Perdemos essa chave teológica há mais de um milênio, mas hoje precisamos dela desesperadamente tanto para pôr fim a nossas guerras religiosas quanto para dar liberdade a todos.

Consciente de que a irja é o antídoto teológico contra ele, o EI a apresenta como falta de piedade religiosa. Ela é, porém, piedade verdadeira combinada com humildade – a humildade que vem de honrar a Deus como o único juiz dos homens. Na outra ponta, o fanatismo ditatorial do EI, por ele apresentado como piedade, parece guiado pela arrogância – arrogância de julgar os outros homens e, em nome de Deus, reivindicar poder sobre eles. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Os recentes massacres em Paris e San Bernardino, na Califórnia, demonstraram mais uma vez a habilidade do autodenominado Estado Islâmico (EI) de conquistar muçulmanos desiludidos. Usando uma mistura de literalismo textual e superioridade moral, o grupo extremista consegue persuadir jovens dos dois sexos, do Paquistão à Bélgica, a jurar lealdade e cometer violência em seu nome.

É por isso que a ideologia religiosa do EI tem de ser levada a sério. Assim como é errado acusar o pensamento do grupo de representar o grosso do Islã, como costuma fazer a islamofobia, também é errado fingir que o EI “não tem nada a ver com o Islã”, como muitos muçulmanos costumam dizer.

Na verdade, líderes jihadistas são versados em pensamento e ensinamentos islâmicos, embora usem seu conhecimento com finalidades brutais e perversas.

Um bom começo para se entender a doutrina do EI é ler a revista digital em inglês Dabiq, que o grupo divulga mensalmente. Um dos mais contundentes artigos que li na revista foi um texto de 18 páginas divulgado em março com o título “Irja – a mais perigosa Bid’ah”, ou heresia.

Se você não tiver conhecimento de teologia medieval islâmica, provavelmente não fará ideia do que irja significa. Literalmente, quer dizer adiamento. Era um princípio teológico lançado por alguns teóricos islâmicos durante o primeiro século do Islã. Na época, o mundo muçulmano vivia uma grande guerra civil, com protossunitas e protoxiitas lutando pelo poder e um terceiro grupo chamado Khawarij (dissidentes) excomungando e massacrando os dois lados. Ante esse caos sangrento, os proponentes da irja diziam que a inflamada questão de quem era verdadeiramente muçulmano deveria ser “adiada” para a outra vida. Mesmo muçulmanos que abandonassem toda prática religiosa e pecassem muito, raciocinavam eles, não poderiam ser denunciados como apóstatas.

Os estudiosos que divulgaram esse pensamento ficaram conhecidos como “murija” ou, simplesmente, “os adiadores”. A teologia por eles esboçada poderia ter sido a base de um Islã tolerante, não coercivo, pluralista.

Infelizmente, eles não tiveram suficiente influência no mundo islâmico. Sua escola de pensamento desapareceu rapidamente, sufocada na memória da ortodoxia sunita como uma das primeiras “seitas heréticas”.

Os murija deixaram sua marca no lado mais tolerante do Islã sunita, representados pelo hanafi-maturidismo, mais popular nos Bálcãs, Turquia e Ásia Central. Hoje, nenhum grupo muçulmano se identifica como murjia.

Então, por que o EI está tão alarmado com essa velha “heresia”? A resposta pode ser encontrada no próprio artigo da Dabiq, em que os autores acusam outros grupos rebeldes islâmicos na Síria de “irja”.

“Essas facções não seguem a sharia, apesar de seu controle dos ‘territórios liberados’”, acusam os redatores do EI. Em outras palavras, a acusação é de não matar “apóstatas”, não adotar punições corporais e não forçar mulheres a se cobrir dos pés à cabeça. Os grupos que o EI acusa de irja provavelmente não aceitariam o rótulo.

Também em seus textos religiosos é provável que irja apareça como heresia. Mas é preciso reconhecer que, ao “adiar” a imposição de religião e a punição de pecadores, esses grupos de fato estão engajados em irja. Talvez não pelos princípios, mas pelo pragmatismo.

De fato, há centenas de milhões de muçulmanos através do mundo também praticando irja, mesmo não familiarizados com o termo. Outros muçulmanos estão sob influência cultural do liberalismo ocidental. Outros são influenciados pelo sufismo, o ramo místico do Islã, que tem mais foco na observância divina do que na estrita aderência a regras e leis.

Em sua condenação à irja, o EI também visa aos muçulmanos tolerantes. Como um desses muçulmanos, convoco os correligionários com ideias semelhantes a ostentar com orgulho o emblema da irja – e renovar o conhecimento. Perdemos essa chave teológica há mais de um milênio, mas hoje precisamos dela desesperadamente tanto para pôr fim a nossas guerras religiosas quanto para dar liberdade a todos.

Consciente de que a irja é o antídoto teológico contra ele, o EI a apresenta como falta de piedade religiosa. Ela é, porém, piedade verdadeira combinada com humildade – a humildade que vem de honrar a Deus como o único juiz dos homens. Na outra ponta, o fanatismo ditatorial do EI, por ele apresentado como piedade, parece guiado pela arrogância – arrogância de julgar os outros homens e, em nome de Deus, reivindicar poder sobre eles. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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