Uma sombra sobre a imprensa livre na região

Cristina Kirchner alinha-se a Chávez e Ortega contra a mídia, mas há vários países na[br]América Latina que sofreram com a ditadura e reconhecem o valor de uma mídia sem grilhões

Marc B. Haefele, do Los Angeles Times, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2011 | 00h00

No mês passado, um dos principais prêmios de jornalismo da América Latina foi para um homem cuja única sacada investigativa foi a recente descoberta de que o capitalismo pode ter destruído a vida em Marte.

Sim, ninguém menos que Hugo Chávez, presidente da República Bolivariana da Venezuela, ganhou o Prêmio Rodolfo Walsh concedido pela Universidade Nacional de la Plata da Argentina e assim nomeado em homenagem a um dos genuínos mártires da profissão do século 20. A honraria foi promovida pela presidente da Argentina, Cristina Kirchner, que foi escolhida para fazer o papel de Tonto do Cavaleiro Solitário neossocialista Chávez.

Os restos mortais de Walsh, um heroico escritor e ativista de esquerda supostamente morto pela ditadura argentina 35 anos atrás, nunca foram encontrados. Mas onde quer que estejam, estão se virando com a ideia de que o homem que muitos consideram hoje o mais sério inimigo da imprensa livre em toda a América Latina recebeu um prêmio que celebra justo essa instituição.

O New York Times reportou em 2009: "Na Venezuela, Chávez e seus apoiadores têm intensificado os esforços para limitar a cobertura da mídia noticiosa." Após Chávez denunciar a "tirania" do rádio privado, a Venezuela revogou as licenças de 34 estações de rádio no país. E leis aprovadas em 20 de dezembro estenderam o controle à internet, que agora, como a mídia de radiodifusão, pode não transmitir mensagens que "fomentem ansiedade no público ou perturbem a ordem pública, promovam a desobediência da ordem legal vigente" ou "se recusem a reconhecer a legitimidade da autoridade constituída". Em agosto, dezenas de militantes chavistas armados assaltaram os escritórios da rede de TV Globovisión, que vinha sendo crítica de Chávez. Seu dono, Guillermo Zuloaga, posteriormente fugiu do país.

Mas há razões para Cristina alinhar-se com Chávez na questão de uma imprensa livre. Uma delas é que ela está travando sua guerra contra boa parte de sua mídia local, incluindo dois dos maiores jornais da América do Sul: Clarín e La Nación. Ambos têm pressionado o governo com matérias bem documentadas sobre corrupção. Algumas envolvendo o enorme aumento de riqueza que a presidente e seu marido morto, o ex-presidente argentino Néstor Kirchner, experimentaram após a eleição dele em 2003. Outras sobre transações duvidosas dos poderosos sindicatos nacionais que apoiam a coalizão peronista.

Outra razão amplamente conjecturada seria o apoio financeiro de Chávez (menos os US$ 800 mil que um agente de vigilância apreendeu chegando a um aeroporto de Buenos Aires) que ajudou em sua vitória eleitoral de 2007.

Mas é em sua hostilidade comum à própria ideia de uma mídia de oposição que os dois parecem mais estreitamente ligados. Chávez criou a Telesur, uma organização de mídia cujas transmissões e presença na web devem supostamente refletir as opiniões e anseios dos desprivilegiados da América. Mas para saber quem está no comando, basta olhar a cobertura bajuladora das movimentações diárias de Chávez em seu site. A agência de notícias Associated Press citou o professor de jornalismo de La Plata, Claudio Gómez, dizendo que Chávez recebeu o prêmio por "seu trabalho pela comunicação popular, por exemplo, pela criação do canal Telesur. Isso não significa que concordemos com outras medidas que seu governo tomou contra a mídia crítica." Ah, bom...

Se você fosse Cristina, que enfrentará uma eleição em outubro sob um grupo desregrado de movimentos trabalhistas e populistas que forma o Partido Justicialista (juntamente com uma corrupção supostamente crescente e uma taxa de inflação anual de 24%), invejaria o poderoso megafone da Telesur de Chávez, e sua habilidade para calar as vozes de oposição.

Felizmente, essa inveja não parece ser amplamente compartilhada por outros líderes latino-americanos. Em grande parte, somente Chávez, Kirchner, Daniel Ortega (Nicarágua) e, ocasionalmente, Evo Morales (Bolívia) enxergam a mídia noticiosa "burguesa imperialista" da mesma maneira.

Outros líderes estão chegando a termos com o valor funcional de uma imprensa sem grilhões numa democracia, particularmente os que mais sofreram durante as ditaduras de direita sancionadas pelos EUA nos anos 70 e 80: a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, por exemplo, que foi torturada no regime da junta militar chefiada por Augusto Pinochet. Ou o presidente uruguaio, Jose Mujica, que ficou preso mais de 14 anos.

Ambos são líderes de esquerda que enfrentam jornais nacionais com histórico conservador e crítico. Os apoiadores da presidente do Brasil, Dilma Rousseff, que foi vítima de tortura do regime militar, acusaram a mídia de agir como um partido de oposição durante a eleição dela, que recentemente se declarou uma defensora da imprensa livre. "Não nego que às vezes (a mídia) espalhou coisas que me deixaram triste", disse ela. "Mas somos amantes da liberdade." De modo que a imprensa no Brasil continua livre.

O mesmo vale, em grande parte, para a Argentina. Mas a CGT, a poderosa confederação sindical que encarna o peronismo, tem bloqueado a distribuição dos jornais que Cristina chama de "monopólio", a despeito do fato de que eles pertencem a entidades separadas e têm políticas fortemente distintas. O mais alarmante é que a parte da esquerda argentina tradicional, que respeita Cristina, parece comprar a ideia de que uma república constitucional de 40 milhões de pessoas com um sistema judiciário enorme e vastas forças policias e militares está à mercê desses jornais de "monopolistas burgueses". / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É JORNALISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.