Anthony Wallace/ AFP
Anthony Wallace/ AFP

Uma teoria sobre as teorias da conspiração

Números de uma pesquisa afirmam que 1 em cada 3 americanos acredita que o governo chinês criou o coronavírus como arma

Benedict Carey, The New York Times

02 de outubro de 2020 | 11h00

Mais de 1 em cada 3 americanos acredita que o governo chinês criou o coronavírus como arma, enquanto outro terço está convencido de que os Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, Centers for Desease Control and Prevention) exageraram a ameaça da covid-19 com o intuito de prejudicar o presidente Donald Trump.

Os números de uma pesquisa divulgada no dia 21 de setembro pelo Centro Annenberg de Políticas Públicas da Universidade da Pensilvânia poderão se estabilizar, ou não, à medida que as comunidades começarem a conter o avanço do vírus.

Mas ela destaca um momento em que está surgindo um tipo determinado de teoria da conspiração: a convicção de que a “história oficial” é na realidade uma Grande Mentira, contada por interesses poderosos, obscuros.

A mais radical das teorias da conspiração inclui canibais e pedófilos satânicos (cortesia da chamada teoria QAnon que circula na internet); seres humanos semelhantes a répteis, disfarçados de líderes corporativos e celebridades (arraigada em histórias de abdução por aliens e na ficção científica); e, neste ano da peste, cientistas e governos do mal, todos conspirando para usar a covid-19 de acordo com os próprios propósitos obscuros.

As estimativas a respeito do número de americanos que acreditam piamente em pelo menos uma teoria da conspiração desacreditada andam por volta dos 50%, talvez até maiores. (Parafraseando uma expressão popular das que costumamos ler nos para-choques dos caminhões: ‘Se não acha que alguém está tramando contra você, é porque você não está prestando atenção.) No entanto, os psicólogos não costumam ser muito apreciados pelos tipos de pessoas que tendem a acreditar nas teorias da Grande Mentira, principalmente nas versões tipo filmes de horror.

Na análise mais abrangente realizada até o momento a respeito das pessoas receptivas às crenças na conspiração, uma equipe de pesquisadores de Atlanta traçou vários perfis distintos de personalidades. Um deles é conhecido: o colecionador de injustiças, impulsivo e superconfiante, ansioso por expor a ingenuidade de quem quer que seja, menos de si mesmo. Outro não chega a tanto: uma figura ansiosa mais solitária, volúvel e independente, que talvez inclui em grande parte idosos e pessoas que vivem sozinhas. A análise também concluiu, no sentido mais radical, uma característica da patologia real – de um “distúrbio da personalidade”, em jargão psiquiátrico.

“Com todas as mudanças que estão acontecendo na política, a polarização e a falta de respeito, as teorias da conspiração passaram a influir muito mais do que em qualquer outro momento na maneira de pensar e no comportamento das pessoas”, afirma Shauna Bowes, uma psicóloga pesquisadora da Emory University que chefiou a equipe do estudo. “Não houve consenso quanto às bases psicológicas das crenças da conspiração. Neste trabalho, tentamos tratar dessa questão”.

As teorias da conspiração são tão antigas quanto a sociedade humana, evidentemente, nos dias em que as comunidades eram pequenas e vulneráveis. Manter-se em guarda contra possíveis complôs era provavelmente uma questão de sobrevivência pessoal, afirmam alguns cientistas. Na era moderna, estudiosos como Theodor Adorno e Richard Hofstadter identificaram as teorias da conspiração e a paranoia como elementos centrais de certos movimentos políticos.

Foi somente na década passada, aproximadamente, que os psicólogos levaram a sério este tópico, e suas conclusões eram fragmentárias e mais ou menos de acordo com o senso comum. Muitas vezes, as pessoas aderem às crenças da conspiração como bálsamo para ofensas profundas. As teorias oferecem um lastro psicológico, uma sensação de controle, uma narrativa interna na tentativa de encontrar algum sentido em um mundo aparentemente sem sentido.

A convicção de que os laboratórios farmacêuticos inventam doenças para vender os seus produtos, por exemplo, pode representar uma maneira de processar um grave diagnóstico saído não se sabe de onde. O advento da pandemia, e sua injeção na política partidária dos Estados Unidos e em outros países, implica a urgência de uma compreensão mais profunda das teorias da conspiração, considerando que as crenças falsas – de que os CDC estariam politicamente comprometidos, de uma maneira ou de outra – podem levar milhões de pessoas a ignorar o conselho das autoridades de saúde pública.

“Temos assim uma verdadeira tempestade, em que as teorias são dirigidas para os que têm medo de adoecer e de morrer ou de infectar mais alguém”, disse Gordon Pennycook, cientista do comportamento da Escola de Administração da Universidade de Regina, em Saskatchewan. “E estes temores impedem que as pessoas façam um julgamento sobre a precisão do conteúdo que podem ler on-line”.

No novo estudo, intitulado Looking Under the Tinfoil Hat, e postado online no Journal of Personality, Bowes e Scott Lilienfeld chefiaram uma equipe que realizou uma bateria de pesquisas padronizadas da personalidade em cerca de 2 mil adultos.

Para esboçar um perfil de personalidade, ou perfis, a equipe de pesquisa mediu as facetas da personalidade mais fortemente correlacionadas com graus mais elevados de sensibilidade às crenças na conspiração.  As conclusões foram pelo menos tão notáveis no caso das associações reveladas quanto no das não encontradas. Por exemplo, qualidades como retidão, modéstia e altruísmo estavam relacionadas de maneira muito fraca à sensibilidade de uma pessoa. Graus diferentes de ira ou sinceridade não tinham nenhuma relação aparente, tampouco a autoestima.

“Devemos lembrar que os testes de personalidade não são parâmetros muito precisos das coisas que não entendemos muito bem”, disse Bowes. “O que obtemos é um quadro confuso, principalmente na primeira vez”.

Características da personalidade que estavam solidamente ligadas às crenças na conspiração incluíam alguns aspectos costumeiros: direito, impulsividade egocêntrica, frieza (o colecionador de injustiças seguro de si), graus elevados de humor deprimido e ansiedade (a figura volúvel, confinada pela idade ou pelas circunstâncias). Outra característica emergiu do questionário que visava avaliar os distúrbios de personalidade – um padrão de pensamento chamado “psicoticismo”.

O psicoticismo é uma característica fundamental do chamado distúrbio da personalidade esquizotípica, caracterizada por “convicções curiosas e pensamento mágico” e “ideação paranoide”. Na linguagem da psiquiatria, é uma forma mais branda da psicose em si, o estado delirante recorrente que caracteriza a esquizofrenia. Trata-se de um padrão de pensamento mágico que casa não apenas com a variedade comum de superstições e em geral aparece socialmente como desarticulado, estranho ou "ausente”.

Com o tempo, talvez alguns cientistas ou terapeutas tentem formular um diagnóstico para os que acreditam na Grande Mentira que parecem estar completamente fora da realidade. Por enquanto, disse Pennycook, é suficiente saber que, quando fora de si, é muito mais provável que as pessoas criem manchetes e histórias sem avaliar muito as suas fontes, ou nem sequer avaliar. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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