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Uma trágica ilusão

Deixar a população morrer de covid-19 para salvar a economia não serviu de nada

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 21h45

A pandemia levou alguns líderes mais imediatistas e menos preparados a contrapor atividade econômica e controle da proliferação do vírus. Os números provam que, como muitos analistas disseram, incluindo eu, esse era um falso dilema, já que a causa da estagnação era a proliferação.

Vou usar aqui os dados da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para o desempenho do PIB e da Universidade Johns Hopkins para as mortes por 100 mil habitantes. E vou separar os países em três categorias, de acordo com a resposta à respectiva epidemia.

Vou começar pelos países que agiram cedo e com rigor. Na China, que espalhou hospitais de campanha pelas áreas afetadas e fez um grande esforço para fabricar kits de testes e rastrear quem fez contatos com os contaminados, apenas 0,34 pessoa por 100 mil habitantes morreu. 

A China também obrigou sua população a ficar em casa durante dois meses. Como resultado, o PIB chinês encolheu 6,8% no primeiro trimestre, quando o lockdown teve mais impacto sobre o país. No segundo trimestre, a economia chinesa já havia reagido, registrando crescimento de 11,5%.

Nos outros países, o impacto econômico das restrições de circulação foi maior no segundo trimestre e é nele que me concentrarei. A Coreia do Sul foi suave na questão da circulação, mas agressiva em máscaras, oferta de testes e rastreamento. As mortes por 100 mil também ficaram abaixo de 1: 0,63. E a queda do PIB foi de invejáveis 3,3%.

A Alemanha restringiu a circulação com mais vigor do que a Coreia do Sul. Os alemães foram bem-sucedidos na oferta de testes – embora menos do que os sul-coreanos. E não tão fortes no rastreamento. As mortes ficaram em 11 por 100 mil habitantes e o PIB encolheu 9,7%.

A Alemanha foi vítima do próprio sucesso como terceira maior exportadora mundial. A retração do comércio mundial, sobretudo europeu, cobrou um preço alto de sua economia. 

Algo parecido ocorreu com o Canadá, que foi rigoroso na contenção da circulação. Sua economia é dependente das exportações para os EUA e, em menor medida, para o México, ambos malsucedidos na resposta ao vírus. O PIB canadense se retraiu 11,5% no segundo trimestre e as mortes atingiram 25 por 100 mil.

Bem pior é a situação dos países que menosprezaram inicialmente a ameaça, e tardiamente restringiram os movimentos dos cidadãos e providenciaram equipamentos de proteção para os profissionais de saúde e testes. Itália, Espanha e Reino Unido são os casos mais evidentes.

A covid-19 matou 59 de cada 100 mil italianos e a sua economia encolheu 12,8%, resultado bem menos ruim do que os outros dois países tardios, porque o surto ficou concentrado na Lombardia. Claro que é a região mais rica, mas o restante da península foi relativamente poupado.

Os espanhóis viram 62 de cada 100 mil morrerem, e o PIB diminuir espantosos 18,5%. Finalmente o Reino Unido, o pior de todos os casos, teve a mesma proporção de mortos que a Espanha, e uma retração econômica de 20,4%, em parte associada também à fuga de investimentos causada pela saída da União Europeia.

E há o grupo dos que não param de desprezar a ameaça. Os EUA se retraíram 9,1% e tiveram até agora 56 mortos por 100 mil. O Brasil teve a mesma contração econômica que a Alemanha, 9,7%, mas 5 vezes mais mortes: 58 por 100 mil. O México, 17,5% de retração e 51 mortes por 100 mil. A epidemia não está controlada nesses três países e haverá ainda muito mais mortes, desgraçadamente.

Para quem acha que estou comparando laranjas e maçãs, há os nórdicos. A Suécia não restringiu a circulação, apostando na imunidade coletiva. O PIB encolheu 8,6% e o vírus matou 57 de cada 100 mil suecos. Na Finlândia, os números foram -3,2% e 6, respectivamente; na Noruega, -5,1% e 5, e na Dinamarca, -7,4% e 11.

A conclusão é simples. Deixar a população morrer para a economia não parar não é apenas obsceno. É, também, uma trágica ilusão.

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