Alex Brandon/AP Photo
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Uma vitória de Trump na Ásia

Suspensão da importação de carvão da Coreia do Norte pela China é vista como resposta a pedidos do presidente americano

LOURIVAL SANT’ANNA, O Estado de S. Paulo

26 Fevereiro 2017 | 05h00

A política externa de Donald Trump obteve seu primeiro ganho visível no fim de semana passado, com a suspensão, pela China, da importação de carvão da Coreia do Norte. A venda de carvão para a China representa entre 35% e 40% das receitas norte-coreanas. No total, 90% da economia do país depende da China. 

Emissários de Trump haviam pedido ao governo chinês que fizesse um gesto de boa vontade, de maneira a facilitar as negociações sobre o comércio entre os dois países. O próprio presidente americano reclamou que os chineses, além de fazerem um “comércio injusto” com os Estados Unidos, ainda “não ajudam com a Coreia do Norte”.

A suspensão da compra do carvão pode ser vista também como retribuição a outro gesto de Trump. No dia 9, véspera de sua segunda reunião com o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, Trump telefonou ao presidente chinês, Xi Jinping, e afirmou reconhecer o princípio de “uma só China”, que ele havia colocado em xeque ao aceitar um telefonema da presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen. 

É o primeiro exemplo de resultado do “método Trump de negociação”. Descrito em seu livro de 1987, “A Arte da Negociação”, o método consiste em começar com a máxima pressão possível, para barganhar concessões e assim obter o máximo de vantagens. É bem verdade que o caso China-Coreia do Norte não serve de prova definitiva de que o método aplicado por Trump pode funcionar sempre. 

A Coreia do Norte não tem facilitado as coisas para a China. Primeiro, testou um míssil balístico no dia 12, exatamente quando Trump e o premiê japonês, Shinzo Abe, estavam juntos no balneário do presidente em Mar-a-Lago, na Flórida. O teste levou Trump a reafirmar seu apoio ao pacto de defesa mútua entre EUA e Japão – que ele havia colocado em dúvida durante a campanha. A principal hipótese de ameaça do Japão, ao lado da Coreia do Norte, é a China, com a qual mantém uma disputa sobre a soberania das ilhas Senkaku – para os chineses, Diaoyu. 

No dia seguinte, duas agentes a serviço da Coreia do Norte mataram Kim Jong-nam, meio-irmão do ditador norte-coreano, Kim Jong-un, no aeroporto de Kuala Lumpur. Kim Jong-nam morava na China e estava portanto sob sua proteção. O governo chinês encarou o crime como afronta. 

Ao anunciar a suspensão da compra de carvão, a China citou as resoluções do Conselho de Segurança da ONU, que preveem sanções contra a Coreia do Norte por causa de seus testes com mísseis balísticos e armas nucleares. Entretanto, em abril do ano passado, o governo chinês havia afirmado que cumpriria as sanções, mas manteria algumas importações, por razões humanitárias. O timing da suspensão, agora, está relacionado tanto com a exasperação chinesa em relação à Coreia do Norte quanto com o desejo de criar um ambiente favorável para a negociação comercial com Trump, que se anuncia difícil.

Há duas questões de fundo, aqui. Em primeiro lugar, a China não tem interesse em cortar inteiramente o cordão umbilical que mantém o regime norte-coreano vivo. A derrocada do regime levaria à unificação da península, sob domínio da Coreia do Sul. Isso colocaria na fronteira com a China (e com a Rússia, bem perto de Vladivostok) um aliado incondicional dos EUA. 

A China usa a Coreia do Norte como irritante contra os EUA, o Japão e a Coreia do Sul. Ou seja, como uma carta de negociação. Mas não tem controle sobre Pyongyang – e essa é a segunda questão de fundo. A ajuda econômica chinesa é vital para o regime norte-coreano, mas igualmente vital é sua sustentação política. Paranoico ou não, o fato é que Kim Jong-un, como aliás seu pai e seu avô, acredita que só se sustentará no poder mantendo o clima de constante tensão militar na região e afastando ou executando parentes influentes, como fizera com seu tio Jang Sung-taek, em dezembro de 2013. 

Uma Coreia do Norte ainda mais faminta e isolada é ainda mais perigosa. Resta saber se um Trump bem-sucedido em suas táticas de pressão se torna mais pacífico ou mais agressivo.

 

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