Uma vitória para Assad

No ano passado, diante de viva comoção da comunidade internacional, as hordas do Estado Islâmico (EI) capturaram a cidade antiga de Palmyra, tombada pela Unesco como patrimônio da humanidade pelos inestimáveis tesouros arqueológicos que abriga. A triste façanha foi realizada pelos islamistas com facilidade desconcertante, deparando com resistência mínima das tropas sírias que, na época, sofriam uma derrota atrás da outra.

Issa Goraieb, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2016 | 03h00

Em setembro de 2015, tudo mudou com a entrada em cena da Rússia. Graças aos intensos ataques aéreos do poderoso aliado, o regime do presidente Bashar Assad reconquistou parte substancial de território perdido nos últimos anos. Mas de todos os sucessos, o mais estrondoso incontestavelmente foi o de Palmyra. Depois do seu aliado libanês Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, que fez malograr uma enorme ofensiva israelense em 2006, Bashar pode agora, da sua parte, reivindicar uma vitória divina, pois repleta de benefícios tanto no plano simbólico quanto militar, político e diplomático.

Para o presidente da Síria, autor de uma impiedosa repressão que resultou num número assombroso de mortos e destruições, a retomada terá sido, em primeiro lugar, a ocasião de ouro para ele se apresentar como salvador da cultura diante da barbárie do EI que multiplicou seus atos de vandalismo e pilhagem em Palmyra, destruindo templos, monumentos, estátuas e sarcófagos. 

Sem chegar ao ponto de felicitar Assad, o secretário-geral da ONU, a Unesco e diversos países ocidentais comemoraram a libertação de Palmyra. “Não temos motivos para lamentar”, afirmou o ministro francês do Exterior, Jean-Marc Ayrault, que entretanto ressaltou a responsabilidade do regime pela tragédia da Síria. “Muito bom”, reconheceu o Departamento de Estado americano, lembrando também que Assad não pode representar o futuro.

No plano militar e estratégico, a reconquista de Palmyra é importante sob vários aspectos. Não só demonstra a terrível eficácia da aviação russa, não obstante a recente partida da maior parte de suas tropas, mas faz dos soldados de Assad (apoiados, é verdade, por combatentes vindos do Irã e do Hezbollah) a única força terrestre capaz de enfrentar com sucesso os extremistas islamistas. 

É a primeira vez, depois de muito tempo, que as tropas do regime ampliam consideravelmente o território que controlam – que se reduzia ao que chamamos de “Síria útil”, ou seja, a periferia da capital, Damasco, e a região nordeste, que abriga a maior parte da população de confissão Alauita, à qual pertence Assad. Ao mesmo tempo, foram cortadas as linhas de comunicação e de abastecimento dos jihadistas e Damasco já tem como próximo objetivo um ataque contra as cidades de Raqqa e Deir es-Zor: a primeira é a capital do EI e a segunda é vizinha da fronteira entre Síria e Iraque.

No plano político e diplomático também evidentes são os benefícios obtidos por Assad na reconquista de Palmyra. Além de recuperar a legitimidade que lhe é conferida pela expansão territorial, sua posição ficou reforçada nas conversas de paz de Genebra. O presidente sírio multiplicou os gestos de abertura, propondo a formação de um governo de união nacional e sugerindo uma eleição presidencial antecipada. 

As propostas foram rejeitadas pela oposição e pelos EUA pois permitem a manutenção de Assad no poder. Ou seja, o problema persiste no tocante à sorte de Assad, questão que provavelmente só será resolvida por um acordo entre russos e americanos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA DO 'ESTADO' E JORNALISTA RADICADO EM BEIRUTE

 

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