Uma vitória por pontos, insuficiente para virar a eleição

Análise: Demétrio Magnoli

É SOCIÓLOGO, COLUNISTA DO ESTADO, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2012 | 03h00

Foi um debate relativamente chato, mas que teve substância, ao contrário dos brasileiros, cujas regras são extremamente engessadas e transformam esses encontros em propaganda dos candidatos. Houve duas concepções distintas de economia e de Estado. Uma liberal, no sentido europeu do termo, de que o mercado é a solução e o Estado é o problema, defendida por Mitt Romney. A outra, mais próxima da visão social-democrata, segundo a qual o Estado é necessário para a coesão social, defendida por Barack Obama. Em síntese, nenhum eleitor pode dizer que está diante de uma eleição misteriosa.

Romney foi muito melhor do que se esperava. Não que ele tenha sido muito melhor que Obama, mas temia-se que ele caísse numa armadilha. Tinha de vencer o debate sem ser agressivo demais, sem cometer gafes ou se enrolar diante de um exímio debatedor. Ao mesmo tempo, tinha de parecer presidencial. E isso Romney conseguiu, pareceu presidencial. Foi ofensivo, sem perder a compostura. Obama talvez tenha sido defensivo demais. Entrou para não perder, pois é o favorito claro nas pesquisas. Mas foi passivo demais.

Se alguém ganhou o debate foi Romney. Mas é verdade também que ganhou por pontos e por poucos pontos. Apesar de ter feito um serviço melhor, fez algo insuficiente para o que precisava. Não conseguiu fazer um assalto ao céu.

Em temas mais específicos, Romney foi muito bem ao apontar os imensos subsídios de Obama ao setor de energia limpa, que em geral não deram bons resultados. Obama nem mesmo tentou defender esses subsídios. Romney não foi tão bem quando atacou o plano de Obama para a Saúde. A resposta de Romney, de que vai deixar o assunto para os Estados decidirem, não está no "espírito do nosso tempo". Estamos vindo de uma crise de 2008, que provocou desconfianças quanto a tirar a responsabilidade do Estado e deixar tudo na mão do mercado. Romney teria ângulos de ataque melhores.

Obama deixou penosamente claro em alguns momentos que está propondo mais do mesmo. Não é uma boa posição com uma economia que cresce pouco e com desemprego tão grande. Insistiu na reforma tributária para taxar os mais ricos, mas poucos eleitores acreditam que isso seja uma resposta adequada para reduzir o déficit. Em linhas gerais, nenhum dos dois conseguiu criar uma linha, uma frase, uma sentença que marcasse no fim do debate. Se um eleitor for questionado sobre a marca do debate, provavelmente não saiba responder.

Romney foi melhor no pós-debate. Enquanto Obama saía rapidamente do palco, Romney ficou, encontrou a família e conseguiu aplausos da audiência republicana. Na TV, reforçou a ideia de que saiu ganhador. Mas é muito improvável que essa vitória estreita reverta o panorama da eleição.

Para os próximos debates, dá uma confiança nova a Romney. Ele sabe que pode debater de igual para igual, sem correr o risco de ser nocauteado. Mas essa confiança é perigosa. Ele agora só tem mais duas oportunidades para conseguir uma vitória devastadora. E essa confiança conquistada pode ser também uma armadilha.

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