Mahbouba Seraj/Arquivo pessoal
Mahbouba Seraj/Arquivo pessoal

Mahbouba Seraj, uma voz feminina contra o retrocesso do Taleban

Afegã luta para que meninas frequentem escolas e mulheres voltem a trabalhar no país

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2021 | 05h00
Atualizado 30 de novembro de 2021 | 08h00

Para a maioria das afegãs, a volta do Taleban marca uma mudança completa de estilo de vida. Meninas foram impedidas de frequentar a escola, muitas mulheres não puderam mais trabalhar e jovens tiveram de abandonar a universidade. Mas mesmo diante do medo de retaliações, a ativista Mahbouba Seraj, de 73 anos, mantém seu escritório e seu abrigo para mulheres abertos em Cabul.

Diretora do Afghan Women Skills Development Center (AWSDC), ONG que trabalha com o acolhimento e empoderamento de vítimas de violência doméstica, Mahbouba é uma das poucas pessoas que, mesmo em condições de deixar o país – por ter também nacionalidade americana – permaneceu por opção.

“Eu amo o Afeganistão e as pessoas do meu país, e tenho um grande respeito por elas. Enquanto muitos dizem o que deve ser feito e como deve ser feito, eu talvez possa ser uma voz da razão e da sanidade por aqui. É por isso que fiquei. Da última vez, fui forçada a sair”, contou Mahbouba ao Estadão.

Retorno

A “última vez” a qual ela se refere foi 43 anos atrás, quando o regime pró-soviético chegou ao poder. Perseguida e presa pelos comunistas – que foram derrotados pelo Taleban, em 1996 –, ela viveu no exílio nos EUA por 25 anos antes de retornar ao Afeganistão. A volta foi impulsionada pela brutalidade dos radicais islâmicos.

“Foi a execução pública de uma mãe de sete filhos no estádio de Cabul, em 1999. Eu vi as imagens e chorei. Aquela mulher, coberta pela burca, alvejada na parte de trás da cabeça. Era como se eu pudesse ver sua face, mesmo que estivesse escondida, e aquele rosto nunca me deixou. Em seguida, houve a destruição dos Budas de Bamyan, em 2001. Gritei quando vi aquilo. Dois anos depois, empacotei minhas coisas em Santa Fé, no Estado do Novo México, e voltei para casa”, contou a ativista. No entanto, o país que Mahbouba encontrou ao chegar, em 2003, era bem diferente daquele que ela havia deixado, mais de duas décadas antes. 

Na juventude, ela terminou o ensino básico e frequentou a universidade em Cabul. Uma memória que tornou pública em entrevistas anteriores é a de ter assistido a um concerto de jazz de Duke Ellington no estádio nacional, em 1963. 

Participação

No entanto, cinco anos de governo do Taleban quase apagaram a presença feminina da vida pública. Meninas foram proibidas de estudar e mulheres impedidas de sair de casa desacompanhadas de um homem responsável, sob pena de serem chicoteadas ou até mortas.

Com o cenário de terra arrasada, o trabalho teve de começar do zero. A ativista ajudou a criar círculos de escuta de mulheres em vilas afegãs – onde a tradição patriarcal é mais forte – e estabeleceu projetos para a educação de mulheres e crianças, pressionando pela participação feminina em decisões sobre o país, tanto em conselhos internos, quanto em rodadas de negociações internacionais.

Os esforços de Mahbouba e de outros ativistas tiveram um impacto positivo no Afeganistão. Após a primeira queda do Taleban, em 2001, cerca de 3,5 milhões de meninas passaram a frequentar a escola e um número cada vez maior de mulheres passou a conquistar espaço na vida social. Muitas ingressaram no mercado de trabalho e algumas alcançaram posições de destaque na política, imprensa e Judiciário.

Tudo isso ficou por um fio com a volta do Taleban. “A principal mudança para as mulheres foi perder a liberdade que elas sentiram que tinham, foi perder a esperança que elas tinham de construir um futuro para elas, e não tiveram oportunidade. Agora, quando eu falo com elas, as mesmas que tinham sonhos lindos, tudo isso se foi”, disse.

Apesar do avanço dos fundamentalistas, Mahbouba tem defendido que as mulheres afegãs precisam ter canais de diálogo com o novo governo – e o Taleban, desta vez, não pode mais silenciá-las. “Eles vêm nos ignorando há muito tempo, mas isso não pode ir tão longe. Eles terão de falar conosco em algum momento”, disse. No começo de novembro, em entrevista ao Los Angeles Times, Mahbouba explicou o motivo. “Somos 18 milhões de mulheres, e temos quase 6 milhões que receberam educação formal.”

Machismo

As constantes aparições na imprensa internacional tornaram Mahbouba uma das principais vozes das mulheres afegãs no Ocidente, chegando a ser indicada como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time

Mas suas críticas não se restringem ao Taleban. Ela também condena o machismo no Afeganistão e a confusa retiradas das tropas americanas, ordenada pelo presidente dos EUA, Joe Biden.

A uma rede turca de TV, logo após o Taleban tomar o controle da capital, Mahbouba não poupou críticas à coalizão internacional. “Digo a todo o mundo: vergonha de vocês pelo que fizeram ao Afeganistão. Vocês estavam apenas nos usando? Somos apenas peões em suas mãos?”

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