Uma voz feminina que desafia os aiatolás

A entrada simples, no subsolo de um prédio de três andares numa rua tranqüila do bairro residencial de Yusejabad, em Teerã, não dá pistas de que ali funciona o escritório de uma Nobel da Paz. Exceto por uma discreta placa de bronze, ao lado do interfone, com seu nome e profissão escritos em farsi e caracteres ocidentais: Shirin Ebadi, advogada. Uma senhora de estatura pequena, o véu discretamente cobrindo-lhe parte dos cabelos curtos aloirados, atende pessoalmente à campainha. Sua voz é enérgica e ela parece não ter tempo a perder. A recepção está cheia de mulheres. Na sala, Shirin retira o véu. Sobre a mesa, um quadro com os dizeres: "Se queres a paz, prepara-te para a guerra." Guerra que para ela dura há, pelo menos, 27 anos. Shirin era, então, a primeira mulher a se tornar juíza no Irã. Veio a Revolução Islâmica, que ela apoiou contra o regime corrupto do xá. E, com a revolução, a surpresa das leis rígidas e discriminatórias contra as mulheres. Shirin foi impedida de atuar no Judiciário, que passou a ser controlado pelos aiatolás. Em 1999, enfrentou meses na temida prisão Evin e, pouco depois, encontrou, entre documentos oficiais que investigava, a própria sentença de morte. Em 2002, sua organização, o Centro para a Proteção dos Direitos Humanos, foi banida. Ela passou a defender - como advogada - mulheres e presos políticos do regime, trabalho que lhe valeu o primeiro Nobel concedido a um iraniano. Shirin é também a única mulher islâmica a receber o prêmio. Aos 50 anos, ela tenta recolher 1 milhão de assinaturas pelo fim da discriminação contra a mulher. Aqui, trechos de sua conversa com o Estado:Qual é a situação das mulheres no Irã hoje?A mulher no Irã vale a metade de um homem. Em um acidente de carro, o seguro pago para uma vítima mulher será a metade do que seria pago a um homem. Num tribunal, o testemunho de um homem tem o peso do de duas mulheres. Eles podem ter quatro esposas e elas só se divorciam com autorização do marido. São os homens que ficam com a guarda dos filhos. Outro problema grave é a execução de crianças: meninas a partir de 9 anos e meninos, de 15. Tudo isso se deve a uma interpretação errada do Alcorão. Mulheres são as únicas vítimas?Não. Na religião há discriminação. Cristão, judeus e zoroastristas só podem ter um representante no Parlamento. Não podem ser ministros, juízes ou presidente. São minorias sem direitos. O valor de indenizações às famílias diferem de acordo com a fé. Se um pai morre, sua herança deve ser dividida igualmente entre os filhos, mas se um deles se converte ao Islã, todo o dinheiro vai para este. Mesmo entre islâmicos, há discriminação. O país tem 90% de xiitas. Desde a revolução, os sunitas não estão autorizados a ter sua mesquita. Houve algum avanço da defesa dos direitos humanos desde 1979?Nos primeiros dias da revolução era mais difícil. Os jornais chamavam-me de feminista. Hoje, trabalhar com direitos humanos é um valor. Não quer dizer que não temos problemas. Há muita censura, jornais reformistas sendo fechados, dissidentes perseguidos, estudantes na prisão. O governo criou uma comissão de direitos humanos islâmicos que é uma mentira. Por isso, sigo trabalhando. Como não posso ter uma entidade, presto serviços como advogada independente há dez anos, gratuitamente.Um Prêmio Nobel ajuda?O prêmio facilitou muito. Ganhei voz junto às entidades internacionais e, de certa forma, mais liberdade. Depois do Nobel, o governo tentou me prender três vezes, mas a repercussão foi tanta que desistiram.Direitos humanos podem existir num Estado teocrático?O problema do Irã não é o Islã. O governo é antidemocrático, não a religião. O governo se baseia em uma interpretação torta da sharia (código de leis islâmicas), mas há muitas outras leituras possíveis. A Malásia é uma nação islâmica e democrática. No Alcorão, não há nada incompatível com democracia, direitos humanos e modernidade. A democracia pode prevalecer no Irã?Não podemos esquecer que ditadores chegaram ao poder por meio da democracia. Hitler foi um deles. O que deveria legitimar um governo no poder é seu compromisso com os direitos humanos e não o voto.Como foram as negociações para libertar a acadêmica americana de origem iraniana Haleh Esfandiari? A minha cliente era inocente e não deveria ter sido presa. Ela tem o direito de deixar o Irã, mas é mantida aqui ilegalmente. É tudo o que sei. O governo não nos dá qualquer informação. Até hoje não consigo imaginar o que passou pela cabeça do juiz que a colocou na prisão. Mas, como ela, há muitos no Irã.A sra. não tem medo?Foi horrível ver meu nome numa lista negra e saber que minha vida corria risco. Mas, quando se está no meio do mar, desesperar pode levar à morte. Minha única alternativa é seguir nadando. A sra. apóia o programa nuclear?O programa para fins pacíficos é um direito. Mas no Irã as decisões são tomadas a portas fechadas, por isso a comunidade internacional desconfia. Sanções econômicas, porém, só prejudicam o povo. FRASEShirin EbadiAdvogada"O problema do Irã não é o Islã. A Malásia é uma nação islâmica e democrática. Não existe nada de incompatível entre o Islã e a democracia"

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