Uma voz no deserto

Último pronunciamento de Obama sobre o Estado da União ilumina as virtudes e as fragilidades do líder americano

The Economist

17 Janeiro 2016 | 02h00

Pelo que dizem os pré-candidatos às eleições presidenciais deste ano, os Estados Unidos estão em situação de miséria. Os republicanos mais moderados, assim como os mais insanos, de Jeb Bush a Donald Trump, pintam um país militarmente enfraquecido, economicamente debilitado e culturalmente subvertido por sete anos de governo democrata. À esquerda, Bernie Sanders fala de uma economia manipulada para favorecer alguns poucos, em prejuízo dos americanos comuns. 

Na terça-feira, no último pronunciamento que apresentou ao Congresso sobre o Estado da União, ainda na condição de titular da Casa Branca, Barack Obama deu uma resposta a esse negativismo todo - e à xenofobia que tal sentimento vem fomentando entre os eleitores americanos.

Em sua primeira campanha presidencial, Obama prometeu fazer muitas mudanças para melhorar a vida dos americanos. Naquele que deve ser seu último grande discurso antes que tenha início, no dia 1.º, em Iowa, o processo por meio do qual seu sucessor será escolhido, o presidente optou por se concentrar nas mudanças históricas que a globalização vem provocando - nos locais de trabalho, nos contracheques dos trabalhadores, na própria configuração da sociedade americana -, as quais, por sua vez, são responsáveis por boa parte da ansiedade e dos ressentimentos que os pré-candidatos vêm explorando em suas campanhas. 

“São mudanças que prometem avanços fantásticos na medicina, mas também transformações econômicas nocivas aos trabalhadores”, disse Obama. “É um processo que deve levar educação às meninas dos vilarejos mais remotos, mas também permite a terroristas se conectar para planejar atentados do outro lado do oceano.”

Não há como saber se os EUA escaparão ilesos da turbulência. “O progresso não é inevitável”, advertiu Obama, desmentindo os críticos conservadores que o acusam de ter uma visão rósea da história. “É o resultado de escolhas que fazemos juntos. E estamos diante de escolhas assim atualmente. Responderemos aos desafios de nossa época com medo, voltando-nos para o interior de nós mesmos como nação? Ou vamos encarar o futuro confiando em quem somos e nos princípios em que acreditamos?”

Foi uma fala que subverteu as características desses pronunciamentos anuais, apresentados em sessão conjunta do Congresso e tradicionalmente compostos de uma lista de projetos de lei que o presidente em exercício desejaria ver aprovados ao longo do ano, acompanhada, no último ano de seu mandato, de uma retrospectiva, repleta de autoelogios, das conquistas alcançadas no período em que o líder esteve no comando da nação. 

No discurso de Obama havia um pouco disso. O presidente exortou os congressistas a referendar o recentemente concluído acordo comercial do Pacífico, a conceder autorização legislativa às operações que os EUA vêm conduzindo na Síria e no Iraque e a promover a reforma do sistema de justiça criminal, uma das poucas questões em que republicanos e democratas ainda conseguem trabalhar conjuntamente. 

Também discorreu sobre várias das realizações de sua gestão, como a expressiva geração de empregos, a reforma do sistema de saúde e o primeiro esforço empreendido, em âmbito nacional, em prol da redução das emissões de carbono. Mas a fala tinha, em essência, intenção mais ousada: foi uma tentativa de demarcar, antes de Iowa, o terreno em que se espera que uma sociedade civilizada trave um debate legítimo.

Liderança. Os EUA, atreveu-se a dizer Obama, não estão na lona. Sua economia é invejada pelo restante do mundo. Suas forças armadas não têm igual. O mesmo vale para a liderança que o país exerce mundialmente. “Quando é preciso lidar com algum problema internacional importante, ninguém espera que Pequim ou Moscou tomem a dianteira. No mundo inteiro, as pessoas contam conosco.” 

É o que deveria bastar para que qualquer político com propostas extremadas para os problemas do país fosse visto com desconfiança. E, quando suas ideias ameaçam os princípios da igualdade perante a lei e do Estado de Direito, que formam o alicerce sobre o qual se assenta o poderio dos EUA, deveriam merecer o desprezo da sociedade americana. 

“Temos a obrigação de repudiar toda e qualquer política que discrimine as pessoas em termos de raça ou religião”, disse Obama, em alusão à promessa feita por Trump de realizar deportações em massa e proibir a entrada de muçulmanos no país. “Isso não tem nada a ver com ser politicamente correto. Trata-se de entender de onde vem a nossa força.”

À política cabe resolver questões mais nobres, determinando o papel do Estado na distribuição das riquezas (“a sociedade americana precisa fazer uma escolha”) e no exercício do poder que os EUA têm nas mãos. Foi com esse espírito didático que Obama defendeu seu governo. 

Sobre o Estado, disse que a preocupação em não sobrecarregar o setor corporativo com um excesso de regulamentações é compreensível; por outro lado, não faz sentido reduzir os desembolsos da seguridade social, como quer a maioria dos republicanos, num momento de estagnação salarial e insegurança crescente para milhões de trabalhadores. 

Com relação à segurança nacional, Obama disse, em resposta tácita a inúmeros críticos, que aumentar a participação dos EUA nas guerras em que o país já está envolvido não o tornará mais seguro: “Não é dessa maneira que exerceremos a nossa liderança; isso é só uma receita para entrarmos novamente em becos sem saída. É a lição que deveríamos ter aprendido com o Vietnã e o Iraque”.

Isso é puro Obama - pôr-se acima das emoções tribais que engolfam a política americana, mantendo uma atitude cerebral, implacavelmente sensata. Muitos de seus críticos, que representam cerca de metade da população do país, com certeza lembraram por que o detestam tanto. 

O presidente disse que uma grande decepção que teve no governo foi o acirramento do antagonismo entre os dois partidos; mas não parece haver clima nos EUA para esforços conciliatórios. Sentado atrás dele, o republicano Paul Ryan, que preside a Câmara dos Deputados, tinha no rosto a expressão impassível de um sujeito que não pretendia deixar escapar o mais mínimo sinal de concordância com as palavras de um presidente por quem seu partido nutre verdadeira ojeriza. Ele manteve-se imperturbável mesmo quando Obama atacou o excesso de burocracia com que o setor privado tem de lidar, e deveria merecer dos republicanos ojeriza ainda maior. 

Quando Obama disse que os EUA não estavam enfraquecidos militarmente, muitos parlamentares republicanos soltaram exclamações de indignação. No entanto, os candidatos republicanos moderados, como Chris Christie e Bush - nenhum dos quais se dispôs a criticar as mesquinharias de Trump com a mesma veemência de Obama -, devem estar torcendo em silêncio para que os eleitores republicanos absorvam a lição moral do presidente e rejeitem os insufladores de multidões. 

Fragilidades. Por sua vez, Obama precisa rezar para que os 30% ou 40% de democratas que no momento se inclinam a votar em Sanders acabem optando por Hillary Clinton, que, por ser mais elegível, está muito mais propensa a defender seu legado.

Por outro lado, é aí que as fragilidades de Obama vêm à tona. A decisão de não desfiar o rosário de sua agenda legislativa - uma ausência tão notável quanto a das vítimas de violência por armas de fogo, simbolizadas por uma cadeira vazia ao lado de Michelle Obama - foi, em parte, tomada à força. Depois de um princípio de cooperação entre republicanos e democratas no ano passado, incluindo a aprovação para lá de atrasada do orçamento federal, Obama não terá mais muita ajuda do Congresso. 

Seja quais forem as medidas com as quais ele pretende dar um último lustro a seu mandato - como, por exemplo, a equiparação salarial entre homens e mulheres ou a ampliação do modesto controle sobre a comercialização de armas de fogo que se tentou aprovar este mês - elas provavelmente terão de ser adotadas por meio de decretos presidenciais.

Assim ocorreu com diversas das realizações do presidente, incluindo as mudanças no modo como as leis de imigração são aplicadas. Embora Obama não tenha usado seus poderes presidenciais tão prodigamente como os críticos o acusam de ter feito - seus antecessores imediatos, George Bush e Bill Clinton, baixaram número muito maior de decretos - a dificuldade em aprovar projetos de lei depois que os democratas perderam o controle da Câmara dos Deputados, em 2010, tornou seu governo extraordinariamente dependente desse instrumento. E, como a maioria dos pré-candidatos republicanos já disse que pretende revogar vários dos decretos baixados por Obama, seu legado corre o risco, na eventualidade de os democratas colherem um resultado eleitoral negativo em novembro, de ficar bastante pobre.

No fim de seu discurso, o presidente mencionou essa fragilidade. Na falta de maior entusiasmo do Congresso com a ideia de promover uma reforma eleitoral, Obama prometeu “percorrer o país” defendendo a proposta. Por mais desejável que seja, a mudança “só ocorrerá quando a sociedade americana passar a exigi-la”, disse. 

Como acontece com enorme frequência, o presidente tem razão e seu diagnóstico é admirável. Apesar disso, é difícil evitar a consternação com a imagem que ficou pairando no ar desse Congresso antagonizado, a imagem do presidente, que já foi o político das mudanças, reduzido a percorrer o país como um pregador mendicante, apelando sem muita esperança aos traços mais benignos da natureza de seu povo.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ANNA CAPOVILLA, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.P

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