Unesco aceita Palestina como membro; EUA e Israel retaliam órgão da ONU

Progresso. Abbas celebra vitória, que antecede votação prevista para este mês sobre admissão palestina plena nas Nações Unidas; americanos e israelenses suspendem contribuições ao órgão responsável por educação e cultura e temem abertura de precedente

GUSTAVO CHACRA, CORRESPONDENTE / NOVA YORK, JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2011 | 03h05

Apesar da oposição dos EUA, de Israel e de outros 12 países, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) aprovou ontem em Paris o ingresso da Palestina como seu membro número 195 em uma vitória para o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. Foram 107 votos a favor, 14 contra e 52 abstenções.

A aprovação antecede a votação sobre a admissão palestina como membro pleno na ONU, prevista para este mês no Conselho de Segurança. Os EUA já disseram que usarão seu poder de veto e, ontem, ficou claro que os palestinos não obterão 9 dos 15 votos necessários para aprovar sua entrada. A Bósnia, que ocupa uma cadeira rotativa no conselho, anunciou que se absterá - o que deve bloquear a pretensão palestina.

Com a decisão de ontem, a Unesco perderá 25% de seu orçamento - 22% vindos dos EUA e 3%, de Israel. "Precisamos encontrar soluções práticas para preservar os recursos financeiros da Unesco", disse o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, em Nova York.

Algumas opções para suprir as perdas começaram a ser estudadas. De um lado, a entidade busca mais financiamento no mundo árabe. De outro, pode cortar programas considerados prioritários pelos EUA no Afeganistão e no Iraque.

Entre as mais de cem nações que apoiaram a iniciativa palestina estão Brasil, Índia, China, Rússia, África do Sul e França. Além de EUA e Israel, Alemanha, Canadá e Holanda votaram contra. Grã-Bretanha e Itália abstiveram-se, deixando clara a divisão da União Europeia sobre o tema.

"Esse voto não foi direcionado contra ninguém. Apenas representa o direito à liberdade e à justiça. A aprovação demonstra que existe um consenso internacional sobre a legitimidade dos direitos nacionais palestinos", afirmou Abbas, ontem, na Cisjordânia, ao celebrar o resultado.

Israel reagiu com dureza à decisão. "Essa é uma manobra unilateral palestina que não trará nenhuma mudança real, além de remover a possibilidade de um acordo de paz. Por causa da decisão da Unesco de aceitar a Palestina como seu membro, analisaremos quais serão os próximos passos na nossa cooperação com a organização", informou um comunicado da chancelaria de Israel.

Um dos temores de americanos e israelenses é que a aprovação na Unesco abra um precedente para o ingresso dos palestinos em outros órgãos da ONU. Os EUA têm poder de veto apenas no Conselho de Segurança, que determina a aceitação de um novo Estado na entidade.

O fim de semana que antecedeu a votação foi de tensão em Paris. Americanos e europeus tentaram convencer Irina Bokova, diretora da Unesco, a suspender a votação. Foram usados argumentos de todo tipo - como o de que a adesão cabe apenas à ONU em Nova York. Washington apresentou uma planilha para mostrar que haveria dificuldade até para pagar os funcionários. Sem conseguir impedir a votação, os EUA passaram a fazer lobby para conseguir a abstenção do maior número de países. Um Estado do Leste Europeu chegou a dizer que Washington ameaçou cortar ajuda para programas culturais bilaterais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.