Unesco, refém da política: Timbuctu e Belém

Organização não tem sido feliz em suas decisões: duas delas, generosas e justas, provocaram furor

Gilles Lapouge,

02 de julho de 2012 | 17h50

A Unesco, ultimamente, não tem sido feliz em suas decisões. Duas delas, generosas e justas, provocaram furor. A primeira diz respeito à Palestina. A basílica da Natividade, em Belém, acaba de ser declarada patrimônio mundial da Unesco. Excelente ideia: quem poderá contestar que o lugar onde nasceu Jesus Cristo é um dos mistérios mais sublimes do mundo?

 

Horas mais tarde, os israelenses enfureceram-se contra a Unesco. Os Estados Unidos, com um pouco mais de polidez, também lamentaram. É preciso acrescentar que a decisão da Unesco fora aplaudida com entusiasmo pelo presidente da Alta Autoridade palestina, Mahmoud Abbas. E seu primeiro-ministro se congratulara pelo "reconhecimento mundial do direito do povo palestino".

 

Em outras palavras, este gesto "cultural" resvalou também para o campo do "político" e, cada uma das duas nações inimigas, Israel e Palestina, o entendeu à sua maneira. Há dezenas de anos, os diplomatas esmeram-se para promover o avanço da paz entre Israel e a Palestina. Mas eis que uma instância não política, a Unesco, embaralhou todo o processo. E sua decisão razoável assumiu o caráter de uma vitória dos palestinos e de uma etapa para a independência palestina.

 

Por enquanto, deve-se reconhecer que a decisão da Unesco não contribuiu para o avanço da paz: o encontro que estava previsto, no domingo, em Ramallah (capital da Palestina) entre o vice-primeiro-ministro israelense, Shaul Mofaz, e o palestino, Mahmoud Abbas, foi cancelado.

 

A Unesco teve outra ideia. Na quinta-feira passada, ela colocou a aldeia africana de Timbuctu (no norte do Mali), já inscrita no Patrimônio Mundial, desde 1986, na lista dos "patrimônios em perigo". Esta decisão se justifica: Timbuctu, às margens do Saara, no arco do Níger, é, desde o século 12, uma das cidades mais esplendorosas da África. Não somente por causa dos 333 santos cuja memória ela celebra em mausoléus de grande beleza, mas também pelas bibliotecas que encerram tesouros da literatura africana, tesouros frágeis como pinturas de areia.

 

Os temores da Unesco eram razoáveis. A Cidade Sagrada de Timbuctu está agora nas mãos de islâmicos radicais, o movimento Ansar Dine e um ramo da Al-Qaeda (AQMI ou Al-Qaeda do Magreb Islâmico). Era portanto legítimo que a Unesco protegesse esta joia. Infelizmente, sua iniciativa obteve o efeito contrário. "O tiro saiu pela culatra", porque os "donos de Timbuctu" replicaram quebrando e profanando este Patrimônio.

 

O etnólogo suíço Eric Huysecom anunciou que, no domingo, quatro mausoléus de santos foram saqueados. "Foram destruídos ou simplesmente deteriorados? Ninguém sabe. Timbuctu está sem contato com o mundo. Na cidade, os habitantes, apavorados com o sacrilégio, não ousam falar ao telefone".

 

Já se tornou um espetáculo monótono da história ver estes frenéticos, tiranos, iluminados, enfurecer-se contra as grandezas do espírito humano. A biblioteca de Alexandria, no Egito, foi incendiada três vezes: pelos romanos, pelos árabes e pelos cristãos. Na Idade Média e na Renascença, os monges e os inquisidores atiraram às chamas as obras-primas da Antiguidade, os textos dos protestantes. Toda a história dos homens está repleta do sangue dos homens e das cinzas dos seus mausoléus, de suas bibliotecas, dos seus cenotáfios e dos seus museus. Em 2001, o mulá Omar, no Afeganistão, bombardeou com seus canhões os budas monumentais de Bamiyan. Será que um dia a litania do mal cessará?

 

Tradução de Anna Capovilla

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