Unesco revela danos a patrimônio na Síria

Prédios históricos da cidadela de Alepo estão em ruínas ou ameaçados por choques entre forças de Assad e rebeldes

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2012 | 03h05

Além de causar centenas de mortes diariamente, os combates entre rebeldes e tropas de Bashar Assad pelo controle da cidade de Alepo, a segunda mais importante da Síria, estão destruindo o patrimônio histórico da humanidade. O alerta foi feito ontem por rebeldes sírios e por técnicos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), depois que parte do mercado árabe medieval da cidade foi destruído por um incêndio.

O fogo no mercado foi registrado pelas câmeras de cinegrafistas amadores, que mostraram corredores incinerados e outros em chamas. O desastre teria sido causado pelo bombardeio das forças armadas leais ao regime, que respondiam à ofensiva dos rebeldes sobre a região histórica de Alepo. Segundo relatos da agência Reuters, houve enfrentamentos com metralhadoras pesadas e granadas. Alguns disparos atingiram lojas com materiais inflamáveis. Cinco dos mais de 20 setores do complexo teriam sido destruídos, entre os quais os destinados às mulheres e o de venda de ouro.

O grande mercado, situado na cidade antiga de Alepo, foi tombado pela Unesco como patrimônio histórico da humanidade em 1986. Um dos argumentos para a decisão foi o fato de a atividade econômica da região ter sido importante para o comércio de todo o Oriente Médio na Idade Média.

Em Paris, a diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, classificou a destruição em Alepo como "profundamente angustiante". "Os mercados de Alepo têm sido uma parte próspera da vida econômica e social da Síria desde a fundação da cidade e permanecem como testemunho da importância de Alepo como cruzamento cultural desde o segundo milênio antes de Cristo", afirmou em nota oficial.

A diretora-geral advertiu ainda que o governo da Síria está violando a Convenção de Hague de 1954, que dispõe sobre a proteção de propriedades culturais em um conflito armado. "Eu apelo a todas as forças fazer um esforço para poupar esses monumentos da história humana, que tanto têm contribuído para o crescimento e a prosperidade da Síria", disse Irina.

Ao Estado, um assessor da direção da Unesco afirmou que a uma equipe da Unesco está pronta para viajar para a Síria, avaliar a extensão dos danos no mercado de Alepo e analisar a possível reconstrução dos prédios. "Ainda não temos uma ideia precisa da destruição e será impossível avaliar os edifícios enquanto a situação de segurança não permitir o ingresso de nossas equipes", afirmou a fonte diplomática.

Ao jornal britânico The Guardian, Michael Collins Dunn, especialista do Instituto do Oriente Médio, o monumento cultural atingido parece ter sido irremediavelmente destruído.

O ataque rebelde sobre áreas centrais da cidade velha de Alepo é chamado de "ofensiva final" pelo movimento insurgente. Apesar da aparente fragilidade do regime, os bombardeios e as mortes continuam. Só ontem, 156 sírios foram mortos, segundo balanço da ONG oposicionista Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), com sede em Londres.

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