União Africana rejeita reconhecer governo rebelde

Maior obstáculo ainda é a África do Sul, que tem relação histórica com Kadafi, que apoiou a luta contra o apartheid no país

Reuters e AP, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2011 | 00h00

A União Africana (UA) informou ontem que não reconhecerá agora o Conselho Nacional de Transição (CNT) como governo legítimo da Líbia. A decisão foi anunciada ontem pelo presidente da África do Sul, Jacob Zuma, que pediu um imediato cessar-fogo entre rebeldes e forças leais ao ditador Muamar Kadafi. Zuma também lembrou que Trípoli ainda não está sob total controle da insurgência.

"As forças (do CNT) estão tentando tomar Trípoli, mas os combates continuam", disse Zuma, que preside o Comitê da União Africana para a Líbia. "Não podemos dizer que esse governo (dos rebeldes) é, no momento, o governo legítimo dos líbios." De acordo com o presidente sul-africano, a UA ainda não rejeitou totalmente a possibilidade de que forças contrárias ou favoráveis a Kadafi participem de um futuro governo da Líbia.

Ontem, antes da reunião de líderes da UA em Adis-Abeba, na Etiópia, o líder insurgente Mahmoud Jibril havia pedido à organização que reconhecesse o CNT como governo legítimo da Líbia. Jibril também pediu que os ativos da Líbia no exterior sejam liberados para os rebeldes e alertou para a possibilidade de o governo provisório enfrentar uma "crise de legitimidade" se as exigências da população não forem atendidas.

A decisão da UA indica a influência que Kadafi ainda tem sobre muitos líderes africanos. Durante muito tempo, especialmente durante a Guerra Fria, o coronel financiou a luta anticolonial e diversos regimes autocráticos no continente.

Cisão. A guerra civil na Líbia, no entanto, dividiu a UA. Na quarta-feira, Etiópia, Nigéria e Chade reconheceram o CNT como autoridade legítima da Líbia. No dia seguinte, a Liga Árabe fez o mesmo. Segundo fontes diplomáticas, a organização, de 52 membros, que normalmente apresenta uma grande coesão em questões internacionais, estaria rachada - pelo menos 20 países africanos já teriam reconhecido o CNT.

Para a reunião de emergência de ontem na Etiópia, apenas três chefes de Estado compareceram. Além de Zuma, também estava presente o presidente de Uganda, Yoweri Museveni, também aliado de Kadafi - Uganda seria um dos possíveis destinos do ditador líbio.

O caso sul-africano é delicado. Kadafi foi um dos maiores aliados do Congresso Nacional Africano (CNA), o partido governista da África do Sul, durante o apartheid, em um momento em que quase ninguém apoiava a luta dos negros contra a segregação racial no país.

O ex-presidente Nelson Mandela tem uma relação afetiva com o coronel, a quem costuma chamar de "Meu Companheiro Líder". A primeira viagem internacional do ditador líbio após a suspensão das sanções internacionais, em 1999, foi à África do Sul. Nas últimas semanas, Pretória tem sido o maior obstáculo à aprovação de medidas favoráveis aos rebeldes no Conselho de Segurança da ONU.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.