Chris Pizzello/Invision/AP, File
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União contra o abuso

Milhares de mulheres têm denunciado histórias de abusos que sofreram

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2017 | 05h00

A França é um país que adora discutir consigo mesmo. Qualquer acontecimento é um casus belli. Armamos emboscadas. Nós nos insultamos na TV. Jogamos perfídias na cara dos inimigos. Alguns são a favor do casamento homossexual, outros deploram a ideia. 

Imediatamente, começa um conflito. Dentro das famílias, surgem duas facções, que logo param de se falar. Agora, vemos um fenômeno raro: um tema que agrega todos os rincões do velho país gaulês. Mulheres e homens, velhos e jovens, liberais e coletivistas, ricos e pobres, todas as camadas da sociedade francesa concordam em uma coisa: condenar os homens que se comportam de maneira abominável com as mulheres.

O homem que conseguiu essa façanha de promover uma espécie de “união sagrada” entre todas as faces da sociedade francesa é Harvey Weinstein, um americano de quem ninguém tinha ouvido falar e sobre o qual soubemos duas coisas: primeira, ele é um dos homens mais poderosos do cinema mundial; segunda, ele é um porco. Logo depois das primeiras revelações, uma comitiva de atrizes francesas começou a aparecer nas telas para dizer: “Sim, eu já sabia.” 

A essa altura, tais horrores pareciam distantes. No entanto, Sandra Muller, jornalista francesa, teve a ideia de perguntar às francesas se esses modos também eram praticados na França, não apenas nos círculos da arte, mas também na vida comum. Foi criada uma hashtag para que as francesas pudessem falar livremente de sua experiência e memórias. Uma hashtag fácil de lembrar: “Balance seu porco”. Foi uma avalanche.

Chantagem. Milhares, dezenas de milhares de mulheres, até então em silêncio e agora libertadas, vêm contando os assédios que sofreram uma vez, cinco vezes, dez vezes, no trabalho, na família, no cinema, na rua, na faculdade, no supermercado, de manhã, à tarde e à noite, o tempo todo e em todos os lugares.

A história é quase sempre a mesma. E o mais grave: na maioria dos casos, a agressão é realizada não por um homem comum, mas sim por um superior na hierarquia da empresa. A chantagem é sórdida. Assim, dois horrores se combinam: o horror da “predação sexual”, do homem que usa sua força e cinismo para destruir a vontade da mulher, para impor seus desejos. E também o horror da condição subordinada. 

Nesses testemunhos lancinantes, vemos como o predador sexual é apenas uma peça na enorme maquinaria social que esmaga os inferiores, especialmente quando esses são mulheres. Três razões pelas quais todas essas mulheres, que agora vêm a público de maneira repentina e prodigiosa, nunca revelaram essas ignomínias: elas tinham vergonha, como se fossem culpadas pela infâmia. Elas sabiam que, se apresentassem queixa à polícia, seriam ouvidas de má vontade e, acima de tudo, elas temiam que, se falassem, ficariam sem trabalho – perdidas. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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