União de Inglaterra e Escócia liderou o Império Britânico

CENÁRIO: Andrei Netto

O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2014 | 02h01

Aconteça o que acontecer no referendo de amanhã, a Grã-Bretanha não vai se dividir em duas. A entidade que será abalada pela eventual secessão da Escócia será o Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte, a união política que ocupa a ilha da Grã-Bretanha, situada a noroeste da Europa, entre os mares da Irlanda e do Norte. É nessa ilha que conviviam, há milênios, tribos que originaram a Escócia, ao norte, e a Inglaterra e o País de Gales, ao sul e sudeste do território. Unidos, esses povos lideraram um dia o mais extenso império da humanidade.

O Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte é uma entidade política relativamente jovem, que data de 1.º de janeiro de 1801, na fusão do Reino da Grã-Bretanha - conjunto integrado por Escócia e Inglaterra desde 1707 - com o Reino da Irlanda do Norte. Do ponto de vista histórico, a formação do país, hoje comandado pelo primeiro-ministro David Cameron, passa pela integração de Escócia e Inglaterra, países à beira da secessão. Após o fracasso da empreitada imperialista da Escócia - que almejava rivalizar com a Inglaterra - em 1700, os dois países formariam o Reino Unido da Grã-Bretanha, a partir dos Tratados de União firmados entre Londres e Edimburgo.

Na prática, os documentos determinavam que a Inglaterra e a Escócia desapareceriam como Estados independentes, abrindo mão de seus Parlamentos e de seus sistemas jurídicos autônomos em benefício de um legislativo bicameral - Westminster, formado pela Câmara dos Lordes (Alta, espécie de Senado), e Câmara dos Comuns (Baixa, espécie de Câmara dos Deputados) -, que designa um chefe de governo, o primeiro-ministro. A união entre escoceses e ingleses foi extinta em 1801 e substituída por um conjunto de países ainda maior, com o ingresso da Irlanda do Norte.

Até o século 13, a união informal entre dois Estados soberanos foi possível pela sujeição de reis escoceses aos ingleses, mas a partir das Guerras de Independência da Escócia (1296-1328 e 1332-1357) as tentativas de unificação se deram pela força. Na prática, todas resultaram na vitória dos escoceses, que se mantiveram independentes até 1707.

Os confrontos entre tribos ao final do primeiro milênio, e entre reinos, durante o segundo milênio, provaram que a única possibilidade de união na Grã-Bretanha se daria pela diplomacia e pelo interesse comum, e não pela imposição militar. Uma primeira experiência de união pacífica dos reinos da ilha de Grã-Bretanha fora realizada pelo rei escocês James VI, monarca do período conhecido por historiadores como União das Coroas.

Outra lição histórica é a de que, juntos, ingleses, escoceses, irlandeses e galeses podem ser poderosos. A aproximação entre Inglaterra e Escócia coincide com os anos de apogeu do Império Britânico, um colosso político nascido no século 16 que encontrou seu ápice após a 1.ª Guerra Mundial, em 1922, quando era a maior potência econômica do planeta, reagrupando 400 milhões de habitantes - um quarto da população mundial.

A partir de amanhã, dependendo do resultado do referendo sobre a independência da Escócia, a união de reinos da Grã-Bretanha pode deixar de existir. E Londres, que no século 20 foi a capital de um território equivalente a 22% da superfície da Terra, pode se restringir a pouco mais da metade de uma ilha.

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