União de insurgentes empurra avanço taleban

Apoio de pequenos grupos que lutam contra ocupação ocidental amplia influência de organização fundamentalista no Paquistão e no Afeganistão

Roberto Simon, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

"A guerra de Obama", como ficou conhecida a nova estratégia americana no Afeganistão e Paquistão, ganhou um desafio extra. Após três atentados em cidades paquistanesas na semana passada, entre eles a tentativa de bombardeio ao prédio do serviço secreto, o Taleban alertou que fará mais "grandes ataques" a centros urbanos. A demonstração de força do grupo, porém, esconde uma nova realidade: embora militantes taleban reivindiquem - e sejam acusados - por toda violência, o grupo perdeu o relativo monopólio que detinha sobre a insurgência, hoje integrada por uma confederação de grupos distintos.A evolução fez com que alguns especialistas passassem a se referir a um suposto "neo-Taleban". Mas Marvin Weinbaum, ex-analista do Departamento de Estado dos EUA e pesquisador do Middle East Institute, discorda da alcunha. Segundo ele, o Taleban, como organização, manteve-se. A diferença é que a insurgência ganhou força nos últimos anos e, por isso, aliciou outras entidades contrárias à presença de tropas estrangeiras - clãs, líderes tribais, famílias. "Muitas vezes até por oportunismo, acreditando na derrota da Otan, eles aliaram-se ao Taleban", explica Weinbaum ao Estado.Extremamente descentralizado, o novo sistema de guerrilha teria em seu centro líderes taleban, como o afegão Jalaluddin Haqqani e o paquistanês Baitullah Meshud, e, "gravitando" em torno deles, grupos com interesses diversos.Jorrit Kamminga, diretor do International Council on Security and Development (Icos), também diz que o Taleban é apenas parte do problema. Ele divide a insurgência em duas tendências: "Há os ?fundamentalistas?, um grupo ultrarradical bem pequeno e inspirado na Al-Qaeda, e os ?locais?, que são muito mais numerosos e têm reivindicações legítimas. Estes lutam contra injustiças, alguns perderam emprego, outros têm problemas com vizinhos ou governantes, e outros ainda fizeram da insurgência sua profissão."Os "fundamentalistas" representam a continuidade do Taleban dos anos 90.A equação da insurgência que EUA e Otan atualmente enfrentam no sul da Ásia tem ainda outro elemento complicador: o ópio afegão. A relação da droga com a luta assimétrica na região, no entanto, não é nova. Segundo analistas, entre desavenças e alianças, a história do Taleban e a do cultivo em larga escala da papoula se confundem.HERANÇA SOVIÉTICAFoi com o fim da ocupação da URSS no Afeganistão, em 1989, que o narcotráfico ganhou força. Os soviéticos só conseguiam manter sob controle as cidades afegãs, enquanto o campo era dominado pela guerrilha - ironicamente, situação similar a de hoje. "Por isso, a URSS promoveu uma destruição indiscriminada da área rural, acabando com os meios de subsistência", explica Vanda Felbab-Brown, da Universidade Georgetown.Com o campo em ruínas, agricultores que antes limitavam a produção da papoula encontraram na planta praticamente a única saída para sobrevivência.Foi também com a retirada soviética que ganhou espaço o Taleban - inicialmente formado por refugiados afegãos doutrinados em madrassas no Paquistão. Taleban é o plural de "taleb", que significa em árabe "estudante". "Com a saída dos soviéticos, houve um vácuo de poder e senhores da guerra passaram a se digladiar", diz Pervaiz Nazir, da Universidade de Cambridge. "Sem a URSS, os EUA perderam o interesse e abandonaram o Afeganistão."Em meio à desordem, o Taleban partiu do sul do Afeganistão com uma violenta campanha militar contra poderes locais, calcada na implementação da Sharia. Sete anos após a retirada soviética, o grupo tomou Cabul, isolou seus inimigos no norte e instaurou um regime que duraria até 2001, quando foi derrubado pela Otan e pela Aliança do Norte."Esses taleban agora se reconstituíram e conduzem uma ofensiva ideológica e armada", diz Nazir. São eles que, segundo Weinbaum e Kamminga, centralizam uma coalizão unida em torno de um interesse: o fim da presença ocidental no país.INOVAÇÕESA falta de unidade na insurgência é o principal argumento dos que defendem uma negociação direta com militantes supostamente "pragmáticos". "Mas o diálogo dificilmente acontecerá agora, porque a guerrilha está muito forte. Antes é preciso enfraquecê-la e, assim, elementos oportunistas recuarão", afirma Weinbaum.No olho da insurgência, o Taleban de hoje teria passado por duas grandes inovações. O grupo, que já baniu a papoula por considerá-la "anti-islâmica", agora está em toda cadeia de produção do ópio, explica a professora de Georgetown. A única estratégia concreta adotada pelos EUA para combater a droga - dar até US$ 300 em dinheiro vivo a camponeses para que não plantem - naufragou com a corrupção do Estado afegão.Outra novidade é a máquina de comunicação recém-criada pelo Taleban. Porta-vozes do grupo hoje falam com frequência e diretamente a repórteres. Para o jornalista Jason Motlagh, especialista na questão, "o Taleban está ganhando a guerra da informação".

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