União Européia é a primeira vítima da guerra no Iraque

Já existe uma primeira vítima da guerra contra o Iraque. É a Europa. Há alguns dias, oito países da União Européia - Inglaterra, Itália, Espanha, Portugal, Dinamarca, Polônia, República Checa e Hungria - submeteram-se à bandeira americana, em resposta à recusa da França e Alemanha em se juntarem a essa aventura guerreira.Essa iniciativa atingiu a UE no coração. Confirmou a inenarrável impotência da Europa em matéria de diplomacia. Pior. Eles deram mais importância aos EUA do que à Europa. A Otan está bem melhor que a UE.Esse golpe de força foi tanto mais violento porque, entre esses oito países, estavam "atlantistas" inveterados e muito conhecidos, como Blair, Aznar e Berlusconi e países do leste que foram admitidos na UE recentemente. Entre os "europeus" recentes, a Polônia parece ter entrado na Europa apenas para prejudicá-la. A prova: a Polônia, aceita na UE com grande dificuldade, encomendou 50 aviões F-16 americanos, muito mais que os aparelhos europeus.Ontem, uma nova bomba caiu sobre a Europa, vinda de Bruxelas. Dessa vez, tem a ver com os dez países que ainda não entraram para a UE, mas deverão ser recebidos em 2004 ou 2007. Esses dez países - o grupo de Vilnius - são a Letônia, a Lituânia, a Estônia, a Bulgária, a Eslovênia, a Eslováquia, a Romênia, a Albânia, a Croácia e a Macedônia. Esses dez países se declararam prontos a fazer parte de uma coalizão para desarmar o Iraque.Por que essas duas secessões sucessivas na Europa? Note-se que os dez países se candidataram tanto à UE quanto à Otan. E é evidente que a Otan (e os EUA) é aos olhos deles mais importantes que a UE - sem comparação. E vale dizer que os lobbies americanos estão trabalhando com afinco nos dez países de Vilnius e nos oito que assinaram a carta de Tony Blair.Mas há outra razão para explicar esses ferimentos sangrentos, escancarados, que a UE sofreu nos últimos quinze dias. Essa razão é a extraordinária falta de habilidade de Paris e Berlim, que decidiram de uma hora para outra ressuscitar a dupla "franco-alemã". As grandes potências, tipo Inglaterra ou Itália, tiveram uma crise aberta de ciúmes. Os países pequenos tiveram uma reação clara contra esses dois grandes.É claro que essas reviravoltas no centro da Europa não mudarão a postura dos EUA. Políticos, jornais, escritores e uma grande parte dos EUA estão criticando a França e sua diplomacia bizarra - não podemos esquecer a Costa do Marfim. Depois da rejeição desdenhosa e ridícula por Donald Rumsfeld dos países da "velha Europa", França e Alemanha, a National Review descreveu os franceses como "desagradáveis comedores de queijo, prestes a desistir".O New York Post descreveu a França como a cabeça pensante do "eixo das fuinhas". Slate comparou a França a Portugal, "uma velha potência, atualmente em completo declínio".Não há porque se afobar. Quando De Gaulle saiu da Otan ou desafiou os americanos no Vietnã, ele também foi descrito pelos americanos como um velho chefe decadente. Mas, hoje, o general francês é considerado um dos grandes homens de seu tempo.Pode ser que Jacques Chirac e seu ministro Villepin evoquem De Gaulle quando a imprensa americana, inglesa e européia tratá-los com muita agressividade. Mas pode ser também que Villepin ou Chirac não sejam como De Gaulle.

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