União Européia e EUA saem em defesa do papa

Diante das reações negativas às palavras sobre o Islã pronunciadas pelo papa Bento XVI em visita a Alemanha na semana passada, líderes ocidentais saíram em defesa do pontífice nesta segunda-feira, apontando a liberdade de expressão como principal valor por trás do discurso. Em entrevista coletiva nesta segunda-feira, o porta-voz da Comissão Européia (CE), Johannes Laitenberger, disse que as reações "desproporcionais, que equivalem a rejeitar a liberdade de expressão, são inaceitáveis". "A liberdade de expressão é uma pedra angular dos valores da União Européia, como é o respeito a todas as religiões: cristianismo, islamismo, judaísmo ou laicismo", defendeu Laitenberger. A polêmica foi gerada por uma referência do Papa ao Islã em seu discurso na universidade de Regensburg, na última terça-feira (12). Em uma aula magna sobre razão e fé, o pontífice citou um texto medieval em que um imperador cristão chama os ensinamentos do profeta Maomé de "maus e desumanos".Em sua defesa do discurso do papa, Laitenberger destacou o que seria uma má interpretação das palavras do pontífice. Segundo ele, os trechos do discurso que geraram polêmica foram colocadas fora de contexto: "Na opinião da Comissão Européia, qualquer reação deve estar baseada no que foi dito efetivamente, e não sobre citações extrapoladas, inclusive deliberadamente." Laitenberger explicou, no entanto, que não cabe à Comissão Européia "esclarecer ou interpretar" o que foi uma "contribuição teológica no âmbito de um debate teológico". EUAPosição semelhante foi adotada pelo departamento de Estado americano, que se pronunciou nesta segunda-feira a favor da "tolerância e da liberdade religiosa".O porta-voz do departamento, Tom Casey, foi o responsável pela transmissão oficial do governo americano, e ressaltou que "não há espaço para a violência em nome da religião". Ainda assim, Casey afirmou que o governo americano "não quer entrar na análise dos conteúdos da mensagem do Pontífice". "Deixamos ao Vaticano a tarefa de falar pelo Papa, não é nossa tarefa dar conselhos aos líderes das grandes religiões." O presidente americano também aproveitou para comentar a polêmica. Para George W. Bush, o papa Bento XVI foi sincero em suas desculpas pelos comentários sobre o Islã, informou a agência de notícias Reuters. A declaração foi feita em conversas bilaterais com o primeiro-ministro malásio, Abdullah Ahmad Badawi, atual presidente da Organização da Conferência Islâmica.Até a derrotaApesar dos esforços para amenizar a escalada gerada pelas palavras de Bento XVI, os ataques continuaram nesta segunda-feira, com a célula iraquiana da Al-Qaeda prometendo continuar com a Jihad (guerra santa) até a "derrota" do ocidente. Segundo um comunicado publicado pelo grupo em um site da Internet, as declarações sobre o islamismo e a Jihad feitas pelo papa Bento XVI são "difamatórias". No pronunciamento, os radicais aproveitaram para atacar Bush. "Depois que o estúpido portador da cruz Bush anunciou o começo de uma nova campanha de Cruzada contra o Islamismo e contra os muçulmanos, iniciada com a invasão do Afeganistão e do Iraque, o servo dos Cruzados, o ´papa do Vaticano´, seguiu os passos de Bush nos ataques flagrantes contra o Islã e contra seu profeta Maomé no que concerne ao rito da jihad", afirma a mensagem, intitulada de "Comunicado sobre a difamação do papa dos cristãos contra nosso profeta". As comparações entre as posições de Bush e do papa coincidiram com as palavras do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei. Em discurso nesta segunda-feira, Khamenei disse que os comentários do papa estavam alinhados com uma "cruzada" contra o Islã. "Nós não esperamos nada do (presidente americano George W.) Bush, pois ele trabalha para companhias de pilhagem global. Mas essas declarações são um motivo de surpresa e preocupação quando vindos da maior autoridade cristã", disse o líder. Os Estados Unidos não mantém relações diplomáticas com o Irã há mais de duas décadas, devido a invasão da embaixada americana em Teerã por radicais islâmicos.ProtestosUma pequena manifestação pacífica em protesto contra as palavras do papa foi realizada esta manhã em frente à nunciatura apostólica em Teerã. Fontes da sede diplomática disseram à Ansa que cerca de 30 jovens, homens e mulheres permaneceram durante uma hora em frente ao edifício, vigiado pela polícia iraniana. Os manifestantes exibiram um cartaz com a frase: "Respondemos à má educação e à violência de Bento XVI com a bondade." Depois os jovens, que, segundo a agência semi-oficial Isna, eram estudantes da Universidade de Karaj, aproximaram-se do muro que cerca a nunciatura e atiraram ramos de flores enquanto gritavam "Allah Akbar" (Alá é grande). No domingo, o núncio apostólico no Irã, monsenhor Angelo Mottola, foi convocado a comparecer no ministério das Relações Exteriores de Teerã para um protesto e um pedido de explicações pelas palavras do papa.

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