União Europeia resgata Espanha para evitar recessão mundial

Bastidores : Jamil Chade

É CORRESPONDENTE EM GENEBRA, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2012 | 03h03

A decisão da Europa de resgatar a Espanha foi tomada na esperança de evitar que a economia mundial fosse mergulhada em uma nova recessão que teria impacto muito mais profundo que a de 2009 com a quebra do Lehman Brothers. Mas, em Bruxelas, muitos admitem: apenas injetar dinheiro em países não vai resolver a turbulência europeia e a atual crise só será superada quando o bloco reconhecer que precisa de uma nova estrutura de integração, uma reforma completa de seus bancos e políticas para voltar a crescer.

"Já ficou provado com o resgate para a Irlanda, Portugal e Grécia que apenas dar dinheiro e fazer exigências não funciona no longo prazo. Mas a decisão agora foi de emergência. Precisava-se frear a crise na Espanha, antes que ela aterrizasse na Itália, saísse do controle e contaminasse o mundo", resumiu ao Estado um negociador europeu, que pediu anonimato.

Segundo ele, até mesmo a chanceler Angela Merkel foi obrigada a ceder. Berlim rejeitava ajudar a Espanha por meio de um resgate somente aos bancos, sem que isso tivesse de passar por um pacote permeado de condicionalidades ao governo. Mas o risco de ver a quarta maior economia do bloco implodir e o impacto que teria na economia mundial fez Merkel adotar uma postura mais flexível.

Não haverá uma nova exigência fiscal para a Espanha ou novos cortes de orçamento além dos que já estavam planejados.

Mas, ainda assim, será o governo espanhol que terá de assinar o memorando com Bruxelas, suas contas serão vigiadas, será Madri quem ficará responsável pelo dinheiro e por um plano de ajustes em seus bancos. Ontem, o bloco rejeitou o pedido espanhol de que o dinheiro fosse diretamente aos bancos.

"Merkel aceitou socorrer a Espanha para não ter de lidar com um resgate para a Itália, o que seria dramático e talvez impagável", confirmou ao Estado o funcionário da Comissão Europeia. "Neste fim de semana, foi a Europa que foi resgatada, não a Espanha", alertou.

No fundo, porém, muitos alertam que esse modelo de ajuda já se esgotou e que, mesmo acalmando os mercados, não irá resolver os problemas da Espanha. "O desemprego não vai cair por conta dessa injeção, a economia não vai voltar a crescer. Tudo isso dependerá de reformas estruturais de competitividade", indicou. Isso, segundo ele, exige uma nova postura da Europa sobre como equilibrar as contas e produção das diferentes regiões.

A iniciativa de sair ao socorro da Espanha, porém, não deixa de ser golpe psicológico. Para a Alemanha e para a Europa, o novo resgate é a prova de que ninguém está imune à crise e mesmo uma economia que brigou em 2008 por ter um lugar no G-20 acabou sucumbindo. Para a orgulhosa Espanha, é a comprovação de que o país não teve mesmo a capacidade de lidar com sua crise e que seu sistema bancário não passava de um castelo de areia. Já para Mariano Rajoy, presidente do governo espanhol, apenas uma certeza: nenhum governo que recorreu à Europa jamais sobreviveu no cargo.

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