União Europeia tem plano de invasão por terra da Líbia, revela jornal

CORRESPONDENTE / PARIS

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2011 | 00h00

A União Europeia (UE) já teria pronto um plano de operações para o ingresso de pelo menos mil soldados, em especial britânicos e franceses, no território da Líbia. O objetivo da estratégia seria garantir o acesso de assistência humanitária à cidade de Misrata. Sitiado há 50 dias, o município de 300 mil habitantes é o mais severamente bombardeado pelo regime, em ataques que já teriam deixado mil mortos.

A revelação foi feita ontem pelo jornal britânico The Guardian. Segundo a reportagem, o plano foi traçado em Bruxelas e dependeria apenas do aval das Nações Unidas para que seja posto em prática.

O projeto, denominado Eufor, teria obtido a aprovação dos 27 países da UE no início do mês. A intervenção militar terrestre seria estritamente humanitária, com a criação de corredores de auxílio, segurança de portos e escolta de navios, entre outras medidas.

Além disso, os soldados teriam autorização para revidar a eventuais ataques em caso de bombardeios pelo regime de Muamar Kadafi.

Caso venha a se concretizar, a programa Eufor será a primeira intervenção militar por terra na Líbia. O plano da UE, entretanto, aguardaria um parecer do Escritório para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha), da ONU, para ser levado adiante.

Corredor humanitário. Coincidência ou não, a ONU anunciou ontem ter obtido do governo de Kadafi garantias para o fornecimento de assistência humanitária, com apoio da organização não governamental Crescente Vermelho à cidade de Misrata, um dos focos da resistência rebelde na Líbia.

Assim, pela primeira vez as Nações Unidas e uma entidade humanitária internacional ingressarão em uma área da Líbia sob o poder de Kadafi. Há mais de um mês, a instituição fornece ajuda humanitária à cidade de Benghazi, sede do movimento revolucionário.

"Há dezenas de milhares de pessoas cujas necessidades básicas não são satisfeitas. Temos um grave problema", afirmou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, durante visita a Budapeste, na Hungria.

O acordo para enviar ajuda humanitária foi obtido no domingo, durante uma visita da secretária-geral adjunta para Assuntos Humanitários da ONU, Valerie Amos, e de Abdullah al-Khatyb, enviado especial de Ban.

A organização estima que 3,6 milhões de pessoas - de uma população total de 6,1 milhões de líbios - precisariam de ajuda humanitária por causa do impasse político e dos cercos promovidos pelo regime a cidades como Misrata, Az Zintan e Nalut.

Em Trípoli, o porta-voz do regime, Moussa Ibrahim, confirmou o acordo.

"Vamos permitir à população deixar Misrata em segurança, assim como fornecer ajuda, víveres e medicamentos", afirmou a jornalistas./ COM AFP E REUTERS

PARA ENTENDER

A resolução do Conselho de Segurança da ONU que autorizou a intervenção da Otan na Líbia, adotada em fevereiro, é ambígua em relação à imposição de um corredor humanitário com forças terrestres. O texto explicitamente veta a "ocupação" do território líbio por tropas estrangeiras. Países europeus, porém, argumentam que a medida não se enquadra na categoria "ocupação", por ter um caráter temporário e humanitário. A resolução da ONU assegura ainda o direito de se recorrer a "todos os meios" para proteger civis.

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