União nacional evitaria nova desordem no Afeganistão

Para evitar a guerra civil e a secessão no Afeganistão, a alternativa mais plausível seria a de se constituir um governo de união nacional, representando todos os grupos étnicos e chefiado por um líder de origem pachtoune, a etnia majoritária no país (40%). Ao mesmo tempo, os Estados Unidos e demais países ocidentais deveriam delegar à ONU poderes para conter as ingerências regionais, em particular do Paquistão, do Irã e da Rússia e apontadas como uma das principais causas das crises afegãs antes e durante o domínio político do grupo Taleban.Para especialistas europeus, além de velarem para que as comunidades étnicas afegãs cheguem rapidamente a um compromisso político, os países ocidentais teriam outra obra meritória a realizar, uma vez superadas as últimas resistências do Taleban nos seus redutos de Kandahar. Ou seja, favorecerem o retorno ao Afeganistão para os trabalhos de reconstrução do país, de seus empresários, técnicos, engenheiros, médicos, agrônomos e demais quadros de formação média e superior que fugiram aos milhares do país por conta do regime taleban e se exilaram pelo mundo afora.Dentro desse espírito, vários universitários afegãos residentes na Europa já estão se reagrupando em torno de uma organização criada para facilitar ?o retorno de cérebros? ao Afeganistão. Na França, o movimento é liderado pela médica Nilab Mobarez, que se apresta a rescindir o contrato com o hospital parisiense, onde é chefe de equipe, para regressar a Cabul. Sobre a solução política para o conflito, o presidente do Observatório Europeu dos Países muçulmanos, Antoine Basbous, em entrevista ao Estado, hoje, em Paris, se disse convencido de que, doravante, a etnia pachtoune - após amargar a terrível experiência de ver seu nome confundido ou tomado como sinônimo do grupo Taleban - exercerá papel preponderante no processo de reconciliação nacional.Nessa perspectiva, Basbous observou que o antigo rei afegão, Zaher Chah, de origem pachtoune e ora exilado em Roma, continua sendo muito respeitado no seu país, tem trânsito entre os líderes moderados de sua etnia majoritária e pode desempenhar papel essencial na formação de um governo de consenso nacional. Na sua opinião, para que tal solução de compromisso se imponha, será preciso que os Estados Unidos e a Europa desencorajem as ingerências regionais ou, mais precisamente, do Paquistão, do Irã e da Rússia nos negócios internos afegãos. ?Essas ingerências se traduziram, afinal, pelos conflitos étnicos que sacodem o Afeganistão há mais de 20 anos?, disse.Basbous confessou estar preocupado com a posição delicada em que se encontra agora o presidente paquistanês, Pervez Mucharraf, após a tomada de Cabul pela Aliança do Norte, que Islamabad sempre combateu como principal defensor do grupo Taleban. O presidente do Observatório dos Países Muçulmanos não descartou a eventualidade de, inconformados com a vitória da Aliança do Norte, setores dos serviços secretos e parte dos militares paquistaneses tentarem desestabilizar Mucharraf ou atrapalhar qualquer solução política para o conflito que não confirme a predominância dos pachtounes no novo poder a ser instaurado em Cabul.Leia o especial

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