Unicef denuncia uso de meninas e jovens em ataques do Boko Haram

Entidade da ONU teme que os menores sejam vistos como ameaça, o que prejudicaria osesforços de reinserção

JAMIL CHADE, GENEBRA, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2015 | 02h04

Crianças e mulheres capturadas pelo grupo extremista islâmico Boko Haram, na Nigéria, estão sendo usadas para cometer ataques suicidas.

A denúncia foi feita ontem pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), após uma investigação revelar que, nos últimos cinco meses, o número de casos de atentados sofreu uma expansão inédita, com crianças e mulheres sendo usadas como armas.

No total, ocorreram 27 ataques suicidas desde o início do ano. Em 2014, foram 26 atentados. Em 75% dos casos, as bombas foram carregadas por menores de idade ou moças.

"Não são as crianças que estão cometendo esses ataques. Elas são obrigadas a isso por adultos, de uma forma horrível", declarou Jean Gough, representante do Unicef na Nigéria. "Elas são vítimas. Não os autores das mortes."

Garotas e mulheres têm sido usadas principalmente para detonar explosivos em mercados e pontos de ônibus, sempre lotados, no nordeste da Nigéria.

Barbárie. Desde julho de 2014, pelo menos nove atentados suicidas foram cometidos por crianças com idades a partir dos 7 anos e jovens de até 17 anos. Em todos os casos eram meninas.

No total, as Nações Unidas estimam que 743 mil crianças foram expulsas de suas cidades em razão do conflito na Nigéria. Pelo menos 10 mil delas seriam órfãs, ainda mais vulneráveis a grupos radicais.

"Muitas crianças foram separadas de suas famílias e fugiram da violência, e não têm nenhum cuidado hoje", disse Gough. "Sem a proteção de seus parentes, essas crianças podem se envolver com grupos criminosos ou atividades armadas", alertou o representante do Unicef.

O temor da entidade é que, com um número cada vez maior de casos de crianças envolvidas nos atentados, os menores comecem a ser vistos como ameaças. O resultado poderia representar sérios problemas para qualquer esforço de reintegração desses menores na sociedade.

Em seis anos da insurgência do Boko Haram, mais de 15,5 mil pessoas morreram, 1,5 milhão delas foram obrigadas a se refugiar e centenas foram sequestradas. No início de maio, uma operação militar resgatou 300 crianças e mulheres que estavam em acampamentos do grupo. Mas pelo menos 219 garotas sequestradas na cidade de Chibok, em abril de 2014, continuam desaparecidas.

O Estado entrevistou no mês passado uma das meninas que conseguiram fugir do grupo. Seu apelo foi para que o mundo não abandone suas amigas.

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