Único condenado por Lockerbie morre na Líbia

Megrahi, que pegou perpétua pelo atentado de 1988 contra um voo da Pan Am, tinha sido libertado em 2009 por causa de um câncer

TRÍPOLI, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2012 | 03h03

Abdel Basset Ali al-Megrahi, o único condenado pelo atentado à bomba que derrubou em 1988 um avião da Pan American sobre Lockerbie, matando 270 pessoas, morreu ontem em Trípoli, informou o filho dele, Khaled al-Megrahi à agência Associated Press.

Megrahi, de 60 anos, condenado à prisão perpétua, cumpria pena numa prisão escocesa quando em 2008 foi diagnosticado com câncer de próstata. Em agosto de 2009 foi libertado com base nas leis escocesas que permitem que prisioneiros com doença terminal morram em casa. Ao sair da prisão, sua expectativa de vida era de três meses. Mas sua libertação da prisão provocou forte reação em todo o mundo

O fato de ele morrer em seu país natal e não numa prisão da Escócia representou um final de vida espantoso para um homem que era considerado terrorista pelos EUA. Alguns parentes das vítimas do atentado comemoraram a morte de Megrahi, outros lamentaram o fato de que nunca saberão se mais pessoas estiveram envolvidas no caso.

No final da década de 80, Megrahi trabalhava como chefe de segurança da Lybian Arab Airlines, empresa aérea estatal. Mas o trabalho era um disfarce. Ele era, na verdade, um agente do serviço de inteligência líbio.

Seu trabalho na empresa aérea levou-o a viagens por todo o mundo e ajudou-o a conhecer intimamente a segurança dos aeroportos - e suas deficiências.

Em 21 de dezembro de 1988, uma mala com uma bomba explodiu em um avião Boeing da Pan American, que seguia de Londres para Nova York, sobre o vilarejo escocês de Lockerbie, matando as 259 pessoas que estavam a bordo e 11 pessoas em terra. O ato terrorista provocou uma caçada em todo o mundo, quando uma equipe internacional de investigadores seguiu pistas em 50 países e entrevistou 14 mil pessoas.

Bruce Hoffman, da Universidade Georgetown, especialista em terrorismo, disse numa entrevista em abril que, "na ocasião, foi a maior investigação criminal na história do FBI". No começo, Megrahi não despertou suspeitas. Segundo Hoffman, um fator crucial ligando o terrorista ao atentado foi o fato de o avião ter se atrasado para decolar. Se o voo tivesse partido na hora, a aeronave teria explodido em algum lugar sobre o Atlântico, o que tornaria quase impossível recuperar evidências vitais para a investigação.

Evidências. As autoridades relacionaram Megrahi ao atentado após realizar uma busca pela área de 2.200 km² na Escócia à procura de indícios em meio aos destroços do aparelho. Foi descoberto um fragmento de plástico verde de um marcador de tempo de fabricação suíça usado para detonar o explosivo. Analistas do serviço de inteligência americano descobriram depois que nos anos 80 o governo líbio havia comprado um conjunto desses dispositivos. As autoridades descobriram também os restos de uma camisa que tinha sido guardada na mala da bomba e fora vendida por uma butique em Malta. O dono da loja identificou Megrahi como a pessoa que havia comprado a camisa.

Durante a década de 90, o FBI manteve Megrahi em sua lista dos mais procurados. Uma recompensa de US$ 4 milhões foi oferecida por sua prisão.

Acusações foram apresentadas contra Megrahi e, simultaneamente, contra seu cúmplice líbio, Lamen Khalifa Fhimah, nos Estados Unidos e Escócia.

O ex-ditador Muamar Kadafi recusou-se a extraditar os dois homens, mas os manteve sob prisão domiciliar. Em resposta à recusa, o Conselho de Segurança da ONU decretou sanções contra a Líbia que paralisaram a economia do país. Depois de longas negociações Kadafi aceitou, em 1999, entregar os homens para serem julgados na Holanda, com juízes escoceses.

Em 2001, Megrahi foi condenado à prisão perpétua. Fhimah foi absolvido. O governo Kadafi jamais negou o envolvimento no atentado e por vários anos pagou o valor de US$ 2,7 bilhões para as famílias das vítimas.

Depois de ser diagnosticado com câncer, Megrahi pediu para ser enviado para casa. Ao chegar a Trípoli, em 2009, foi recebido por centenas de líbios em júbilo e foi considerado herói nacional. Até a morte, Megrahi insistiu na sua inocência, alegando ter sido vítima de uma conspiração internacional. / WASHINGTON POST

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