Único jornalista iraquiano credenciado nos EUA terá de deixar o país até o dia 28

Os preparativos para a guerra nos EUA estão sendo acelerados à medida que se aproxima o dia da ofensiva militar. Uma das providências diz respeito ao tratamento dispensado à imprensa iraquiana representada nos EUA. Washington decidiu expulsar o único jornalista iraquiano credenciado no país, mais especialmente em Nova York, junto às Nações Unidas. Trata-se de Mohammed Hassan Allawi, representante da Agência Iraquiana de Imprensa.Esta é a primeira vez que o governo americano decide expulsar um jornalista devidamente credenciado de seu território, mesmo não sendo novidade o fato de alguns espiões terem conseguido circular pelos corredores da ONU com carteiras de imprensa. Muitas vezes, os serviços de contra-espionagem dos países desenvolvidos chegam a admitir essas pessoas, considerando essa a forma mais fácil de controlá-las.Mas esse não parece ter sido o caso do representante da agência iraquiana, cuja ordem de expulsão foi assinada por um diplomata americano, Patrick Kennedy, que considerou que sua presença poderia "prejudicar os interesses dos EUA" e fixando o dia 28 para que ele deixe o país. Hassan Allawi, de 38 anos, não está protestando. Pelo contrário, procura evitar muita onda, preferindo deixar Nova York no dia da reunião do Conselho de Segurança (CS), quando os inspetores da ONU irão apresentar novo relatório sobre o desarmamento de seu país."Respeito a decisão americana e não pretendo promover nenhuma escalada com essa história", disse o jornalista que faz parte da comunidade iraquiana - ao todo, 300 mil pessoas - vivendo nos EUA, e que desde o mês de novembro está sob observação das autoridades.Allawi estava no posto de correspondente há mais de dois anos, mas seu estatuto não lhe permitia sair do perímetro de Nova York. Seus cinco filhos de 8 a 16 anos estudam em escolas públicas da cidade e nunca sentiram a menor discriminação, razão pela qual reagiram com estupefação quando foram informados da expulsão. O presidente da Associação dos Correspondentes de Imprensa, Tony Jenkins, explicou que nenhuma prova foi apresentada contra Allawi, nenhuma evidência de que ele possa ser um agente iraquiano e não um jornalista.Reação no IraqueEm contrapartida, no Iraque, Saddam Hussein procura manipular, quando possível, a imprensa ocidental. Ele a utiliza conforme seu interesse, abrindo e fechando o país a jornalistas estrangeiros. Isso ocorre desde os tempos da guerra com o Irã. Na época, enquanto havia a expectativa de uma vitória rápida sobre um Irã desorganizado e desestabilizado pelo regime recém-instalado dos aiatolás, centenas de jornalistas receberam visto de entrada.Como a guerra contra o Irã se prolongou, o interesse pela presença de um grande número de jornalistas estrangeiros diminuiu. Afinal, eles contestavam as vitórias militares anunciadas pelo regime. Os agentes do Ministério da Informação, verdadeiros policiais, passaram a dificultar a missão jornalística, cortando a luz nos hotéis e bloqueando os aparelhos de telex. O ministério organizava, diariamente, viagens de ônibus de jornalistas até a Jordânia.No hall dos hotéis reservados a jornalistas, surgiam listas de "candidatos" à viagem, sem que a maioria tivesse feito inscrição. Os que não compareciam ao embarque eram "aconselhados" a partir no dia seguinte, pois já haviam visitado, em verdadeiros charters rodoviários, organizados pelas autoridades, as frentes de combate de maior interesse iraquiano.

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