Unida, oposição lança ofensiva final contra 13 anos de hegemonia chavista

A campanha eleitoral venezuelana para a eleição do próximo domingo é a mais singular desde a ascensão de Hugo Chávez ao poder, em 1999. A oposição unificou-se em torno de um nome forte, Henrique Capriles Radonski. Chávez, recém-saído de um tratamento contra um câncer pélvico, não pode empregar toda sua energia na campanha de rua. Ele lidera a maioria das pesquisas, mas Capriles aposta nos indecisos e nos jovens para reverter o quadro.

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2012 | 03h04

Chávez aumentou os investimentos em programas sociais para manter a fidelidade de seu eleitorado e tenta mobilizá-lo com um discurso polarizador. O presidente vincula os investimentos em habitação, educação, saúde e alimentação à sua gestão e acusa a coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD) de ter um "pacote neoliberal" pronto para ser implementado, caso vença a eleição.

Para o diretor da consultoria Econométrica, Ángel García Banchs, Chávez usa programas sociais para obter respaldo político. "Ele utiliza a renda do petróleo para incluir a população na esfera de consumo, não no sistema produtivo", diz. "Não são programas sociais, mas políticos. Para ele, o Estado, o chavismo, o governo e a PDVSA (estatal do petróleo) são a mesma coisa."

O líder bolivariano também surpreendeu quem esperava dele uma "campanha eletrônica", distante das ruas, em razão de seu estado de saúde. Chávez concluiu em maio o tratamento contra a reincidência do câncer em Cuba. Analistas e jornalistas críticos ao chavismo - entre eles Nelson Bocaranda, o primeiro a dar a notícia sobre a doença - previram poucos meses de vida para o presidente e colocaram em dúvida sua participação na eleição.

"A doença deu à campanha um marco de grande incerteza", reconhece o analista político Carlos Romero, da Universidade Central da Venezuela (UCV). "Chávez está melhor, mas não está curado. Ele entendeu que é o mobilizador do chavismo e decidiu participar mais ativamente da campanha."

Capriles optou por um discurso conciliador, sem ataques diretos ao presidente, e com uma campanha porta a porta. O opositor visitou cerca de 260 cidades do país desde o início da campanha, em julho. O candidato promete manter e melhorar as missões - ponta de lança de seus projetos sociais - e recuperar a Venezuela para o investimento privado externo e interno. O opositor costuma vincular o seu modelo ao adotado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Pesquisas. O diretor do instituto de pesquisa Datanálisis, Luís Vicente León, avalia que se Capriles continuar conquistando o voto dos eleitores indecisos na proporção atual, o resultado final será imprevisível.

Nos últimos seis meses, 80% dos indecisos optaram por Capriles. Se a tendência continuar, a vantagem de Chávez pode cair no dia da eleição para 3 pontos porcentuais. "Se os números se comportarem da maneira que têm se comportado, pode ser um perigo para Chávez", disse León, ao apresentar a última pesquisa do Datanálisis - dos institutos venezuelanos, o de maior credibilidade - na terça-feira.

"Há um crescimento da candidatura da oposição e uma estabilidade dentro da candidatura de Chávez, ainda que num patamar alto de votos", observa Romero. "A pergunta é se a curva de Capriles atingirá a de Chávez."

O cientista político Omar Noria, da Universidade Simón Bolívar (USB) atribui à estratégia de campanha 'porta a porta' de Capriles o crescimento na maioria das pesquisas. "O entusiasmo é evidente. Capriles tem crescido com uma campanha que o retrata como um jovem capaz de resolver os problemas do povo."

O sociólogo Oscar Reyes, consultor do canal estatal TVES, concorda que o candidato da oposição pode ameaçar Chávez. "Capriles é o melhor nome da oposição. Ele aprende muito rápido e cresceu como candidato ao longo da campanha com o apoio maciço da mídia privada e da direita", diz. "Agora, o embate que se coloca é ideológico: o socialismo do século XXI contra o modelo neoliberal."

Ainda de acordo com Reyes, o que pode definir a eleição, além dos indecisos, é o eleitor jovem que irá às urnas pela primeira vez. Na Venezuela, o voto não é obrigatório. "São cerca de 7 milhões de jovens que não estão contaminados pela polarização política", avalia. "Mas se Capriles ganhar, o CNE vai demorar a soltar os resultados."

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