Unidade secreta dos EUA assessora comandos anti-Taleban no Paquistão

Pelo menos 70 militares americanos atuam em solo paquistanês para reduzir ameaça de radicais na região tribal

Eric Schmitt e Jane Perlez, O Estadao de S.Paulo

24 de fevereiro de 2009 | 00h00

Mais de 70 conselheiros militares e especialistas técnicos dos Estados Unidos trabalham secretamente no Paquistão para ajudar o Exército do país a combater os militantes da Al-Qaeda e do Taleban nas áreas tribais do país. A informação foi dada por autoridades militares americanas. São soldados das Forças Especiais do Exército americano que treinam tropas paramilitares e do Exército paquistanês, fornecendo informações da inteligência e assessorando-as em táticas de combate. Esses soldados não realizam operações de combate, segundo as autoridades.Eles fazem parte de uma força-tarefa secreta, supervisionada pelo Comando Central e o Comando de Operações Especiais das forças dos Estados Unidos. O treinamento começou no ano passado, como apoio do Exército e do governo paquistaneses, em mais um esforço para erradicar os militantes do Taleban e da Al-Qaeda da região - que ameaçam as tropas americanas no Afeganistão e estão desestabilizando cada vez mais o Paquistão. Trata-se de um programa de operações encobertas muito mais amplo e ambicioso jamais visto em qualquer outro país. As autoridades paquistanesas protestaram vigorosamente contra os ataques de mísseis americanos nas áreas tribais, que qualificaram de violação da sua soberania e opunham-se aos esforços de Washington para mobilizar mais tropas em solo paquistanês. O presidente paquistanês, Asif Ali al-Zardari, que lidera um governo civil frágil, tenta vencer o crescente antiamericanismo observado entre os paquistaneses e a crença de que ele está próximo demais de Washington. Mas, apesar dos riscos políticos para Islamabad, o esforço americano começa a dar frutos. Uma nova unidade de comando paquistanesa, que fará parte da organização paramilitar Frontier Corps, usou informações passadas pela CIA e outras fontes para matar ou capturar cerca de 60 militantes nos últimos sete meses, incluindo cinco comandantes do alto escalão do movimento rebelde, informou um oficial do Exercito paquistanês. SUCESSOHá quatro semanas, foi capturado um militante saudita ligado à Al-Qaeda em Bara, cidade da Khyber Agency, entidade que controla uma das maiores áreas tribais na fronteira com o Afeganistão. Mas os principais líderes do Taleban paquistanês, incluindo Baitullah Mehsud, e o líder na região de Swat, o maulana (título de alta autoridade clerical sunita) Fazlullah, estão à solta. E as autoridades militares americanas sentem-se frustradas por não conseguir convencer o general Ashfaq Parvez Kayani a adotar um sério treinamento de contrainsurgência para o próprio Exército. Kayani, que visita Washington nesta semana, deverá ser indagado sobre o que mais o Exército paquistanês pode fazer para erradicar a Al-Qaeda e o Taleban das áreas tribais. As autoridades americanas admitem que, quando Washington mais precisa da ajuda de Islamabad, as tensões entre Paquistão e Índia que aumentaram desde os ataques terroristas em Mumbai, tornaram o Exército paquistanês menos disposto a concentrar-se mais no Taleban e na Al-Qaeda. Autoridades paquistanesas e americanas decidiram revelar os detalhes desse intercâmbio de dados de inteligência e o trabalho dos assessores militares americanos, para dissipar a impressão de que os ataques com mísseis frustraram os esforços de ambos os lados para combater um inimigo comum. Elas pediram para ficar no anonimato, lembrando que há um segmento antiamericano no meio da população paquistanesa cada vez mais poderoso. "O compartilhamento de dados da inteligência de fato melhorou nos últimos meses", disse Talat Masood, general do Exército da reserva e analista militar. "Ambos os lados se deram conta que é em seu interesse comum." Informantes da inteligência paquistanesa têm sido usados para melhorar a precisão dos ataques com mísseis lançados do Predator e Reaper, aviões não-tripulados, contra os insurgentes. Mais de 30 ataques já foram lançados desde agosto, a maior parte deles depois que Zardari assumiu a presidência. Um oficial do alto escalão do Exército americano disse que 9 dos 20 principais comandantes do Taleban e da Al-Qaeda no Paquistão foram mortos nesses ataques. Além disso, uma pequena equipe de controladores da defesa aérea paquistanesa trabalha na Embaixada dos Estados Unidos em Islamabad, para garantir que os caças-bombardeiros F-16 paquistaneses realizando missões contra militantes nas áreas tribais não atinjam, erroneamente, aviões americanos - com tripulação - voando na mesma área, ou agentes da CIA operando em solo, disse um oficial paquistanês. A unidade de comando paramilitar paquistanesa de 400 homens, recentemente criada, é um bom exemplo dessa nova cooperação. Como parte da organização paramilitar Frontier Corps, que opera nas áreas tribais, os novos comandos paquistaneses estão enquadrados na cadeia de comando separada do Exército, que é composto de 500.000 soldados, treinados, em primeiro lugar, para combater a Índia, considerada arqui-inimiga do Paquistão.

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