'Unidas, Crimeia e Rússia ficarão bem'

Maior autoridade acadêmica da capital da Crimeia diz que movimento Euromaidan perdeu legitimidade

Entrevista com

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2014 | 02h04

SIMFEROPOL / UCRÂNIA - A profunda divisão política da Ucrânia se faz notar no ambiente acadêmico. Nas últimas semanas, analistas políticos ouvido pelo Estado, como o filósofo Constantin Sigov, da Universidade Kiev-Mohyla, elogiavam o movimento Euromaidan e a queda do presidente Viktor Yanukovich.

Em Simferopol, capital da Crimeia, a visão é oposta. Na sexta-feira, dois dias antes do referendo que vai definir se a Crimeia será ou não anexada à Rússia, o historiador e doutor em Filosofia Yuri Katunin, um dos reitores da Universidade Nacional Taurida, a maior de Simferopol, criticou os grupos extremistas de Kiev e assegurou que o referendo é legítimo. "O referendo é uma forma de expressão da opinião pública", disse. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual é a sua análise da situação política na Crimeia?

Yuri Katunin - Eu considero a situação política calma na Crimeia, apesar dos pesares. Vai haver um referendo, que vai decidir se o território deve ficar sob a Ucrânia, com um novo status, ou ser anexado à Rússia. O referendo é uma forma de expressão da opinião pública, é o meio pelo qual a população vai deliberar seus rumos. As pessoas serão livres para se expressarem. Logo, é positivo.

O sr. considera legítima a decisão do Parlamento da Crimeia, de convocar a consulta mesmo com a reprovação internacional?

Yuri Katunin - A decisão do Parlamento da Crimeia é perfeitamente legítima.

O que o sr. pensa do movimento Euromaidan, em Kiev, que resultou na queda do presidente Viktor Yanukovich?

Yuri Katunin - O movimento da Praça Maidan (também conhecida como Praça da Independência) era legítimo, porque as pessoas foram às ruas em busca de mudanças no sistema, em busca de mudanças em suas vidas. Mas, o caminho que esse movimento tomou, que o Parlamento em Kiev está tomando, é outra história. Esse movimento foi minado por grupos extremistas de inspiração nazista e fascista, que agem e pensam exatamente como na 2.ª Guerra. Essa ideologia não é correta e não condiz com a posição da maior parte da população da Crimeia. Esta é a razão pela qual eu considero o referendo legítimo.

Mas o sr. acredita que são os radicais de extrema direita que estão governando a Ucrânia neste momento?

Yuri Katunin - Não, não. Mas o fato é que o diálogo foi interrompido e isso é grave. Se a Ucrânia e o movimento Maidan tivessem procurado dialogar com as autoridades da Crimeia, não estaríamos vivendo essa situação. Ninguém perguntou o que a população da Crimeia pensava, o que queria, quais eram as suas aspirações. Pelo contrário. Impuseram a retirada da língua russa como uma das línguas oficiais do país. Essa é a razão pela qual a população da Crimeia é, em sua maioria, favorável à secessão. É uma forma de evitar um conflito.

O sr. acredita que não há nenhuma chance de a Crimeia permanecer na Ucrânia?

Yuri Katunin - Em uma situação como a atual, na qual não há estabilidade política, a resposta é não. A Crimeia não deve permanecer ligada à Ucrânia. Além disso, as ligações históricas da Crimeia com a Rússia são muito fortes. A maior parte da população aqui é de origem russa, logo, há identidade entre as partes. Unidas, Crimeia e Rússia ficarão bem. Se a Ucrânia insistir, não haverá uma guerra, não haverá um conflito armado, mas haverá conflitos diplomáticos com os EUA e a Europa. O diálogo será difícil, haverá fricções, o caminho será difícil, mas será um conflito do século 21.

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