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Unidos contra a União

PARIS - O abalo provocado pelas idas e vindas de Silvio Berlusconi - que obrigou os ministros de seu partido a deixar o governo de Enrico Letta e voltou atrás - ultrapassa os limites da Itália.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2013 | 02h07

A Europa escapa, enfim, da venenosa crise da dívida que a exaure há três anos. Se a Itália recair no fosso, por novas manobras de Berlusconi, ela poderá arrastar na sua queda todo edifício europeu. E em primeiro lugar, a Europa meridional, os países do "Club Med" como dizem com desprezo os alemães.

Em Portugal, a austeridade regrada por Bruxelas e o Fundo Monetário Internacional (FMI) enlouquece a população. O governo conservador de Pedro Passos Coelho, que aplica os programas de Bruxelas, acaba de sofrer uma derrota brutal nas eleições municipais.

Na Grécia, o país foi exaurido pela austeridade. O governo Samaras mandou prender seis deputados pertencentes ao partido neonazista Aurora Dourada, mas está periclitante. Na Espanha, o rigor torna-se insuportável.

Mas o fenômeno novo, ainda mais inquietante, é que a União Europeia está sofrendo ataques igualmente violentos nos países setentrionais e mesmo nesta Alemanha que se fez, há alguns anos, o "braço armado" da Comissão de Bruxelas.

As recentes eleições alemãs foram seguramente um triunfo da chanceler Angela Merkel. Mas também permitiram que um partido surgido há seis meses, a Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão) conseguisse quase 5% dos votos, ou seja, 2,1 milhões de eleitores. Ora, o programa da AfD é explícito: "Exigimos o desmantelamento da zona do euro e a reintrodução do deutschemark".

Quem constitui esse exército de eurocéticos alemães? Pessoas da direita populista, claro, mas também conservadores liberais, por exemplo, os leitores do jornal Frankfurter Allgemeine e também pessoas vindas de Die Linke (A Esquerda), o partido de ultraesquerda, bem como socialistas do Partido Social-democrata (SPD) e mesmo seguidores da União Democrata-cristã (CDU) de Merkel.

Alianças. É uma configuração política que está gangrenando todo o continente. A França oferece uma bela ilustração disto: a rejeição da União Europeia, que nutria até aqui o partido populista de Marine Le Pen (a Frente Nacional, que já atrai 20% dos eleitores), se estende agora à ultraesquerda (Mélenchon) e até um número crescente de socialistas ou de conservadores liberais.

O caso da Grã-Bretanha não é diferente. Em maio último, o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), partido "eurófobo" que os conservadores apresentavam como um "bando de palhaços", "arrebentou" nas eleições regionais: 23% dos votos. Pânico e estupor. E na praia de David Cameron, inquietação ainda maior, pois muitos conservadores não escondem seu euroceticismo, às vezes sua eurofobia.

O presidente do UKIP, Nigel Farage, aproveitou a situação. Ele acaba de propor aos conservadores uma lista comum para as eleições legislativas de maio de 2015 para melhor torpedear a pobre União Europeia. O Partido Conservador rejeitou a oferta, é claro, não querendo se unir a "populistas vulgares e até mal educados". Mas muitos deputados conservadores murmuraram que afinal...

Assim, de uma ponta a outra do continente, assiste-se à formação de uma espécie de "união sagrada" contra a Europa. Sim, essa união é mais infernal que sagrada, pois aproxima pessoas que não podem se ver nem pintadas: racistas, fascistas, vulgares, chiques, comunistas, liberais, socialistas, mas pouco importa: a Europa congrega essas brigadas díspares, esses grupos inimigos, os associa num mesmo combate.

Pode-se dizer que esse é o primeiro resultado já obtido pela União Europeia: reunir contra si grupos que se odiavam até a morte. Milagre! Triste milagre. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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