Unidos pela legalização, imigrantes têm anseios diferentes

Bandeiras de vários países puderam ser vistas nas manifestações pela aprovação de uma reforma migratória que regularize a situação dos cerca de 11 milhões de imigrantes ilegais que atualmente vivem nos Estados Unidos. Mas, apesar de asiáticos, hispânicos e brasileiros terem marchado juntos, não se pode dizer que seus anseios sejam necessariamente os mesmos. Nos Estados Unidos desde 1987, o brasileiro Carlos da Silva aponta as diferenças entre as exigências da comunidade brasileira e as da comunidade hispânica. Presidente da Massachusetts Alliance of Portuguese Speakers (Maps) ­- uma ONG localizada na cidade de Quincy que oferece serviços sociais e de saúde para as comunidades lusófonas -, ele argumenta que muitos brasileiros vão para os EUA com o único intuito juntar dinheiro e retornar para o Brasil. Mineiro de Nacip Raydan, ele mesmo foi para o país com a intenção de trabalhar por apenas três anos, mas se apaixonou por uma americana, casou e acabou ficando. "A princípio, muitos ficariam satisfeitos com o simples direito de dirigir e trabalhar em paz", afirma Silva. Ele explica que para os imigrantes ilegais, restrições como a proibição de tirar carteira de motorista são um empecilho para quem procura empregos melhores. Não é o caso do mexicano Fernando Espinosa, de 26 anos, que, como muitos de seus compatriotas, deixou seu país atrás de uma vida melhor em terras americanas. Espinosa entrou nos EUA há dois anos com visto de turista e, atualmente, está situação irregular, ou "fora de status", como define. Casado com uma brasileira, ele mora em Salt Lake City, em Utah, e trabalha em dois empregos, como motorista e em um restaurante brasileiro. Para Espinosa, a principal reivindicação da comunidade hispânica é a residência. Segundo ele, os mexicanos querem ter os mesmos direitos que qualquer cidadão americano. Por isso, participou das marchas pela aprovação de uma lei que favoreça os ilegais. "Venho de uma família que sempre lutou por seus direitos. Eu tenho um bom emprego e estou conseguindo minhas coisas, mas muitos latinos não têm as mesmas oportunidades, por isso estou apoiando a luta". Embora esteja em situação regular, Silva também participou das marchas de Boston, juntamente com um grupo de 50 brasileiros. Ele diz que costuma estimular outros imigrantes a participar das manifestações: "Educamos as pessoas a não temer as autoridades e se unir aos protestos". Perspectiva No entanto, para a pesquisadora do Núcleo de Estudos de População da Unicamp, Teresa Sales, mais do que a diferença de nacionalidades, a perspectiva de tempo é o fator mais importante na definição das exigências dos imigrantes. "No caso do imigrante recente, a prioridade é juntar dinheiro para voltar para casa. Para tanto, ele precisa de leis que facilitem o processo do trabalho, e a carteira de motorista se encaixa nessa categoria", argumenta. Teresa explica que à medida que o imigrante se insere na sociedade, passa a criar os filhos e a constituir um lar, o "green card" (autorização para residir legalmente no país) torna-se a grande aspiração. Ela aponta que a imigração brasileira é recente - do início dos anos 80 - enquanto a mexicana é mais antiga. Portanto, os hispânicos constituem uma comunidade maior e mais estabelecida, o que explica a grande maioria mexicana nos protestos. Ainda assim, Teresa aponta algumas mudanças pelas quais passou a comunidade brasileira nos últimos anos. "Acredito que mais de 50% dos brasileiros que vivem hoje nos Estados Unidos querem obter a cidadania", afirma. Outra diferença entre a comunidade hispânica e a brasileira é o grau de escolaridade. De acordo com Teresa, os imigrantes mexicanos têm um de baixo nível de instrução, já que a maioria veio de áreas rurais. Enquanto isso, os brasileiros que vão para os Estados Unidos, geralmente, possuem um grau médio de escolaridade. "Eles realizam atividades aquém de sua instrução, mas as realizam com maior eficiência", explica. Dificuldades diferentes O estudo realizado pela pesquisadora analisou o cotidiano dos brasileiros que migraram para Massachusetts em dois períodos. Durante o primeiro período, há dez anos, os imigrantes tinham mais facilidade para encontrar trabalho, já que a economia americana passava por um momento de crescimento. O problema, no entanto, é que encontravam dificuldades para constituir uma comunidade, já que poucos brasileiros moravam no país. Já a segunda leva, formada por imigrantes que começaram a se estabelecer nos EUA há cinco anos, encontrou uma rede mais estabelecida: comunidades maiores, associações, grupos religiosos, restaurantes brasileiros. Assim, a adaptação foi mais fácil. Em contrapartida, o acesso ao trabalho complicou-se, já que um grande contingente de trabalhadores encontrava-se disponível no mercado. Com anseios diferentes ou não, imigrantes de todas as nacionalidades pretendem apoiar o boicote nacional previsto para o 1º de maio. Os manifestantes foram instruídos a não ir trabalhar nem comprar nada, para mostrar o impacto da comunidade na economia. "Vamos mostrar que o povo não ficará calado", afirma Silva, que também paralisará suas atividades.

Agencia Estado,

15 Abril 2006 | 20h15

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