Unidos pelo separatismo

Crise econômica estimula planos independentistas - sérios ou não -, de grupos catalães, escoceses, bascos e até texanos

É COLUNISTA, ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2012 | 23h47

As faixas no estádio de futebol de Camp Nou, do Barcelona, declaram há muito tempo: "A Catalunha não é a Espanha". A ideia recebeu grande impulso no final de semana quando os partidos favoráveis à independência ganharam as eleições catalãs e fortaleceram a campanha em favor de um plebiscito a respeito da secessão, desafiando a Constituição espanhola e Mariano Rajoy, o combatido primeiro-ministro de centro-direita.

A crise econômica da Espanha é tão grave que Rajoy declarou em junho "a Espanha não é Uganda", o que levou o chanceler ugandense a retrucar, no dia seguinte: "Uganda não quer ser a Espanha!". Ao que tudo indica, a maioria dos 7,5 milhões de cidadãos da Catalunha não quer mais pertencer à Espanha - enquanto a maioria dos ugandenses prefere ficar em Uganda.

A crise da zona do euro acentuou o ressentimento dos catalães, em razão da transferência dos impostos para Madri, e intensificou o nacionalismo da região que se gaba de ser a mais forte economia da Espanha - maior do que a da Grécia, como os catalães gostam de enfatizar.

Elena Salgado, ex-ministra das Finanças da Espanha, observou em 2010: "A Espanha não é a Grécia". Posteriormente, naquele ano, claramente irritado, o então ministro das Finanças da Grécia declarou: "A Grécia não é a Irlanda". E o ex-ministro das Finanças da Irlanda, Brian Lenihan, retrucou por sua vez: "A Irlanda não faz parte do território grego".

Ao mesmo tempo, o secretário-geral da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) acrescentou: "Tampouco Espanha e Portugal são a Irlanda".

A crise do euro constitui também uma crise da geografia do euro. A Escócia marcou para 2014 um plebiscito sobre a independência, 307 anos depois da união que criou a Grã-Bretanha. Ao mesmo tempo, Londres resmunga sua disposição a se retirar da União Europeia.

Essa é a globalização: o desaparecimento das fronteiras na Europa, os ciber-mundos sem fronteiras, a hiperconectividade com todas as forças que aparentemente zombam da nação-Estado, quase justificando, a certa altura, a governança global.

As pessoas se aborrecem e estão irritadas. Não conseguem um novo emprego. Querem novas fronteiras, principalmente porque a probabilidade de terem de defendê-las de fato numa guerra tornou-se infinitamente remota. Elas querem ser ciberglobais e hiperlocais, cidadãs do mundo com os passaportes de micro-Estados. E aparentemente os desejos se equilibram.

Do outro lado do Atlântico surgem tendências semelhantes. No Texas, a ideia da secessão está tomando corpo. Larry Scott Kilgore, um candidato republicano, anunciou que concorrerá ao cargo de governador em 2014 e mudará legalmente o seu nome para Larry Secede (pela Secessão) Kilgore. Os texanos, afetados por um improvável comichão europeu, gostam de destacar que a economia do seu Estado é maior do que a da Austrália. Aliás, na Austrália são muito numerosos os cidadãos de origem grega, e nem por isso ela é, definitivamente, a Grécia.

Com o aumento das dificuldades econômicas também aumentam os sentimentos tribais. A angústia do átomo randômico faz com que as pessoas corram atrás de novas bandeiras, enquanto 800 milhões de criaturas cibernéticas sem fronteiras se unem para assistir ao vídeo Gangnam Style no YouTube.

Evidentemente, a imigração, a luxúria e o amor misturaram-se no sangue das tribos escocesas, texanas e catalãs (vamos batizá-las de Escotexacatalunha). "Eu sou um vira-lata", afirmou certa vez Barack Obama. E, cada vez mais, também este mundo conectado, o mundo das remessas de dinheiro, no qual muitas pessoas moram, por assim dizer, com um pé em Birmingham e outro em Lahore.

Glasgow tem uma considerável população muçulmana. No Texas, mais de um terço da população é hispânica. A Catalunha tem muitos imigrantes que só falam espanhol. O desejo de erguer novas fronteiras é essencialmente um anacronismo.

Será mesmo? A crise do euro é vista como uma crise provocada pela excessiva soberania compartilhada. Talvez uma reação seja racional (mesmo que os catalães e os escoceses digam que gostariam de estar na UE, desde que possam administrar seus próprios negócios). O ressentimento econômico se traduz no renascimento da identidade com uma cultura nacional.

No Texas, onde as condições para o ingresso na União, em 1845, ainda estão sendo debatidas, é um pouco diferente. O principal ressentimento é de ordem social, não econômica. Conviver com todos aqueles intelectuais liberais, ao volante de uma Subaru, favoráveis à eleição de Obama é demais para alguns texanos.

Em 1996, comecei um artigo intitulado Forças Globais Derrotam a Política da seguinte maneira: "Atualmente, na maior parte do mundo, a política está em segundo plano, atrás da economia, como um cavalo e uma carroça ficam desafortunadamente atrás de um carro esporte. Enquanto os políticos tratam da gestão do processo eleitoral nacional - oferecendo programas e slogans quiméricos - os mercados mundiais, a internet e o ritmo furioso do comércio envolvem as pessoas em um jogo global em que os representantes eleitos não passam de meros figurantes".

Extrapolando para 16 anos mais tarde: políticas nacionais, como o presidente da França, François Hollande, acaba de descobrir, muitas vezes não é mais que um ou outro ajuste marginal no exíguo espaço político deixado pelos mercados e por outras forças globais. E isso na França! Os anseios secessionistas ecoam em tempos conturbados. Mas enfrentam o vento contrário da lógica política, global e dos negócios. Acredito que - menos Kosovo do que Quebec - os escoctexacatalães acabarão sucumbindo ao bom senso da união. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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