Unir-se aos ruins para exterminar os piores

Acabar com o Estado Islâmico não é tarefa fácil, mas será possível se o Ocidente superar complexos e trabalhar com Assad e os mulás de Teerã

FRED, KAPLAN, SLATE, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2014 | 02h02

Com seu discurso de quarta-feira condenando o Estado Islâmico (EI) num linguajar novo, duro e determinado, o presidente Barack Obama agora precisa intensificar sua campanha militar de um modo igualmente drástico. Isso não significa - e nem deveria - enviar tropas terrestres americanas ou dar passos que tenham até mesmo o cheiro de uma guerra liderada pelos americanos.

Mas Obama descreveu o EI de um modo que requer mais ação e, mais tarde, a declaração parecerá bizarra se for seguida por mais do mesmo.

Os jihadistas radicais do EI, disse ele, "devastaram" povoados iraquianos e sírios. Sua ambição declarada é o "genocídio". Sua ideologia é "falida", não oferecendo a seus seguidores nada além de "escravidão infindável a sua visão vazia e o colapso de qualquer definição de comportamento civilizado". E agora, eles decapitaram um jornalista americano, um ato que "choca a consciência do mundo inteiro".

"É preciso haver um esforço comum de governos e povos no Oriente Médio para extrair este câncer para que ele não se espalhe, pois uma coisa em que podemos concordar é que um grupo como o EI não tem lugar no século 21", disse Obama.

Tudo muito franco. Mas o presidente dos EUA não pode falar dessa maneira e depois não fazer nada para "extrair o câncer". Qual é o plano de ação de Obama? Nisso ele se tornou vago. Estamos "combatendo" o EI e faremos o que for necessário para que a justiça seja feita", disse. Mas é um eufemismo dizer que esta luta tem a ver com "justiça".

Num ponto perturbador, Obama se entregou a uma retórica sentimental.

"Pessoas como essas no final fracassam porque o futuro é vencido pelos que constroem, não pelos que destroem", disse Obama. Primeiro, isso não é verdade. A história mostra que os destruidores com frequência vencem os construtores. Segundo, esse tipo de conversa é perigoso: se alguém acreditar que há algum caminho universal para a história onde o bem acabará por triunfar sobre o mal, ele pode se enganar em pensar que não precisa fazer nada porque, no fim, tudo dará certo.

Não creio que Obama realmente acredite em idealismo histórico. Ele geralmente fala e se comporta como um realista internacional. Ele sabe muito bem que quando os construtores vencem os destruidores, é frequentemente porque os construtores reagem.

Desde o dia 8, quando Obama autorizou a primeira ação militar, seus comandantes lançaram 84 ataques aéreos contra posições do Estado Islâmico, e os números estão aumentando. Ataques aéreos sozinhos fazem pouco, mas o fundamental nesses ataques é que eles foram coordenados com ações terrestres de forças especiais iraquianas, milícias xiitas e combatentes peshmergas curdos. Foi essa combinação que forçou o EI a se retirar da represa de Mossul. E embora iraquianos e curdos tenham posteriormente se desentendido sobre quem merece o principal crédito, é notável que tenham cooperado numa campanha contra um inimigo comum.

Em junho, quando Obama enviou 300 "consultores" ao Iraque, muitos não compreenderam seu significado. Sua tarefa era criar um "centro de operações conjuntas". Isso envolveu avaliar o equilíbrio militar no terreno, levantar posições do EI e restabelecer relações com unidades do Exército iraquiano e os peshmergas curdos.

Foram essas operações conjuntas que causaram os revezes do EI nos últimos dias. Esse é o modelo do que Obama deveria fazer, e quase certamente fará, nas próximas semanas e meses - ele deveria intensificar o esforço e ampliar a coalizão. Como Obama disse, os assassinos do EI mataram sunitas e xiitas; eles são odiados e temidos por quase todos os governos árabes e muçulmanos e milícias na região. Por isso, Obama (ou a ONU ou a UE) precisa reunir todos os inimigos do EI numa coalizão explícita.

Ultimamente, o EI ficou sob ataque de forças militares não só de EUA e Iraque, mas também de Irã, Síria e, possivelmente, outros. Não sei se houve alguma coordenação por trás do pano, mas se não houve, deveria haver e, se ela está sendo mantida em segredo, deveria ser estabelecida publicamente, Se os jihadistas do EI são tão perigosos quanto Obama diz (e as evidências sugerem que são), é hora de superar sutilezas diplomáticas e perseguir os interesses comuns de nações com as quais, em outras circunstâncias, os EUA talvez não conseguissem se entender.

Sim, é politicamente incômodo, para dizer o mínimo, Obama fazer causa comum, mesmo sobre essa única questão, com Bashar Assad (um monstro que ele um dia disse que "tinha que sair") e os mulás de Teerã (a maioria dos quais considera os EUA "o grande satã"). Mas na 2.ª Guerra, Roosevelt e Churchill se uniram a Stalin para derrotar Hitler - e se não tivessem se unido Hitler teria vencido.

A rede contra o EI deve ser ainda mais ampliada. Um bom modelo aqui é a Guerra do Golfo de 1990-91, em que o então presidente George H. Bush e o secretário de Estado James Baker reuniram uma vasta coalizão para expulsar o Exército de Saddam Hussein do Kuwait. Quase todo país árabe da região - Arábia Saudita, Jordânia, Egito, até Síria - enviou divisões blindadas ou unidades aéreas. Muitos deles não fizeram muito na guerra, mas o importante foi que estavam lá. Sua presença demonstrava que aquela não era uma guerra de imperialistas ocidentais contra o Iraque muçulmano; era uma guerra multinacional contra a agressão.

Bush e Baker consideraram isso absolutamente essencial para a guerra.

Hoje, isso também é essencial. Isso tende a ser esquecido pelos falcões neoconservadores que pressionam Obama a enviar dezenas de milhares de soldados americanos de volta ao Iraque para combater o Estado Islâmico. Primeiro, os iraquianos não querem que dezenas de milhares de americanos voltem. Segundo, se a luta contra o EI der a impressão de uma retomada da guerra americana no Iraque, jihadistas estrangeiros afluirão aos montes para o país e o novo governo iraquiano - que os EUA pressionam para ser inclusivo - recuará.

Baker teve de fazer viagens diplomáticas incessantes para manter a coalizão contra Saddam. Montar operações conjuntas contra o EI pode ser mais fácil. Primeiro porque, embora o EI tenha muitas armas (capturadas, sobretudo, de desertores iraquianos), não se trata de um exército de alta qualidade; fez alguns pequenos progressos desde as primeiras duas semanas de sua investida.

Segundo, ao menos por enquanto, muitos de seus soldados continuam a lutar em formações grandes, no espaço aberto do deserto - alvos perfeitos para ataques aéreos. Terceiro (e este é um ponto fundamental), o EI não tem aliados entre nenhum Estado.

Os combatentes do EI não são arruaceiros maltrapilhos, mas também não são a Panzer Corps de Hitler, nem a Guarda Republicana de Saddam, nem mesmo o Taleban. A batalha não será tarefa fácil, mas também não será enorme se os políticos ocidentais superarem os próprios complexos sobre trabalhar com certas pessoas ruins para derrotar pessoas ainda piores. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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